Livros de 2014 – 1ª parte

Já estamos no segundo semestre do ano, então é hora de comentar alguns livros que chamaram a minha atenção (além de voltar a escrever no blog, agora com um novo visual).

Butch

Butch Fatale – Dyke Dick: Double-D Double Cross, de Christa Faust. Faust é considerada uma das melhores escritoras de ficção criminal da atualidade, criando personagens femininas que se aventuram no cenário de alguma subcultura. Foi assim em Moneyshot (pornografia), Choke Hold (artes marciais mistas) e, com este livro, o mundo LGBT (com ênfase no L). Butch Fatale é uma detetive particular de Los Angeles contratada para encontrar a namorada desaparecida da sua mais recente cliente. E como não podia deixar de acontecer em uma história criminal, ela descobre que a moça morreu de uma aparente overdose, para então envolver-se numa trama com assassinatos, política, chantagem e muito, muito sexo.

Fatale é uma espécie de versão lésbica do detetive hardboiled Mike Hammer, com direito até mesmo a uma secretária sexy. A diferença aqui fica com o humor (a começar pelo título do livro) e as cenas bem apimentadas de sexo, já que Butch nunca resiste a um rabo de saia. A trama tem ação em dose certa (apesar de uma perseguição no final que beira o absurdo…) e mostra não só parte da subcultura LGBT, mas também a de Hollywood.

Galveston

Galveston, de Nic Pizzolato (Scribner). Antes de criar a série True Detective, uma das grandes surpresas do ano na TV, Pizzolato escreveu em 2010 este livro que tem como cenário a cidade texana do título. O personagem principal é Roy Cady, um criminoso que descobre que tem câncer logo na primeira página, mas este será o menor dos seus problemas quando ele também descobre que alguém quer matá-lo.

Este é um típico noir, a começar pelo protagonista, um bandido calejado pela vida condenado por uma doença, e prosseguindo pelo clima fatalista que permeia o livro. Pizzolatto sabe contar uma história instigante – ainda que ela se arraste por alguns capítulos do meio, como se ele embromasse só para que o livro ficasse maior -, porém, pode decepcionar os leitores que esperam reviravoltas; na realidade, chega a ser previsível em determinado ponto. O forte mesmo aqui são os personagens, pessoas que vivem no submundo da sociedade e tentam se reerguer de alguma forma, lembrando em vários momentos as obras de David Goodis, um dos grandes nomes do gênero, com obras como Atire no pianista. Para os fãs da série de TV interessados neste trabalho de Pizzolato, vale notar alguns detalhes que ele usa na trama e que depois aproveitaria em True Detective, incluindo o fato da história se passar em duas épocas distintas.

last

Last Days, de Brian Evenson (Underland Press). Este foi um dos livros mais bizarros que li nos últimos anos, a começar pela premissa na qual Kline, ex-policial que teve a mão amputada por um criminoso, é forçado a solucionar um assassinato em uma seita formada por mutilados.

A história começa bem, em parte pela excentricidade da situação em que Kline se envolve e com a recusa dos seguidores em colaborarem com a investigação, já que a seita tem uma curiosa ordem hierárquica: quanto mais mutilada a pessoa, mais ela é respeitada pelos seus pares. Porém, a trama perde a força na última metade quando mais bizarrices surgem e que nem sempre são bem aproveitadas.

Evenson tem uma prosa lacônica que lembra a de Dashiell Hammett, o que não é surpresa, pois o famoso autor hardboiled foi uma das inspirações para o livro, conforme o próprio Evenson explica ao final. A obra conta ainda com um interessante prefácio escrito por Peter Straub (Os Mortos-Vivos, Koko), mas cheio de spoilers.

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