Space Opera

Boa notícia para quem gosta de space opera: já estão disponíveis na Amazon duas histórias minhas, publicadas na coleção Contos do Dragão (Editora Draco).
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Caminho para o purgatório e  Encruzilhada do paraíso fazem parte do mesmo universo da noveleta Inferno de Dantès, lançada na coletânea Space Opera – volume 2 (2012). Se você gostou dela, é bem provável que goste dessas histórias também 🙂 (aliás, a noveleta está com um desconto de 52% sobre o preço normal).
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E você ainda pode aproveitar a promoção da Amazon (válida até às 23h59 do dia 10/02) e levar um dos contos por um preço especial: na compra de qualquer e-book, ganhe um desconto de R$ 5,00 para a compra do próximo e-book!

Coletânea especial de Halloween

Já está disponível para venda a coletânea Linea Nigra, reunindo três histórias minhas publicadas anteriormente em revista, antologia e na internet.

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Linea Nigra — o conto que dá título ao e-book — foi ganhador do 3º Concurso Literário da Revista Scarium (2006) na categoria Horror, uma premiação que teve como jurados Giulia Moon, Martha Argel e Octavio Aragão, sendo depois publicado na edição nº 23 daquela revista.

Sob as estrelas da Barbária fez parte de Herdeiros de Dagon, antologia lançada pela Argonautas Editora em 2015 e com organização de Duda Falcão (aliás, o livro está concorrendo ao Prêmio Argos deste ano). O texto — uma homenagem tanto a Robert E. Howard quanto a H. P. Lovecraft —  teve sua primeira versão escrita por volta de 2006, mas só foi encontrar um lar quase dez anos depois.

Por último, temos o microconto Solidão, uma história de quase 500 palavras que escrevi como um exercício numa oficina de literatura ministrada pelo Luiz Bras em 2013. No ano seguinte, ela seria publicada no Instagram da Editora Draco durante o Halloween.

E para entrar no clima do Dia das Bruxas, o e-book está à venda por apenas R$ 1,99 até o dia 31 desse mês — depois, o preço será de R$ 3,99. Então aproveite para comprar, ler e deixar seus comentários na página da Amazon.

A arte mística de minerar teratolítios em Ixcuina

A Editora Draco lançou no último final de semana mais um conto meu em formato digital: A arte mística de minerar teratolítios em Ixcuina, história que faz parte da coletânea Erótica Fantástica – volume 2, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro.

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A primeira versão dessa história surgiu em 2008, com o objetivo de conseguir uma vaga numa coletânea de literatura fantástica. Fazia pouco tempo que havia lido The New Weird, antologia organizada por Jeff e Ann VanderMeer que trazia contos desse gênero literário, na época muito debatido no Orkut (lembram dele?) e em listas de discussões do Yahoo (ainda frequentam alguma?). Daí que, inspirado pela leitura de algumas daquelas histórias, resolvi tentar — ênfase em tentar — escrever meu próprio conto new weird. Eu gostei do resultado final da história, mas os organizadores da coletânea não pensaram assim; com a recusa dela, acabei por “engavetá-la”.

Mas então, três anos depois, surgiu a chamada para Erótica Fantástica, um projeto do Gerson que é “sucessor espiritual” da antologia com a mesma temática e também organizada por ele chamada Como era gostosa minha alienígena! (Ano Luz, 2002). Resolvi que era uma boa hora para reescrever a história, acrescentando alguns detalhes e eliminando outros, aproveitando o cenário que mistura ficção científica e fantasia com erotismo.

E para minha satisfação, a história foi aceita, sendo programada para fazer parte do segundo volume desse belíssimo projeto gráfico da Draco (como de costume, diga-se de passagem) e ao lado de outros autores talentosos.

Da sinopse:

No mundo de Ixcuina, as pessoas celebram a Noite dos Mortos com comida, bebida e orgias até o nascer dos sóis gêmeos. É também a única oportunidade no ano para, através da magia, um rapaz invocar o espírito da amada recém-falecida e encontrá-la mais uma vez.

Trecho:

  O festival da Noite dos Mortos começou com gritos de euforia, logo abafados pelos estouros dos fogos de artifício assim que o segundo sol se pôs. Pela janela daquela casa encravada no morro, Zander viu o show pirotécnico iluminar a cidade abaixo, seus prédios cúbicos espalhados ao redor dos descomunais Grotescos.

            Ainda que fosse a sua primeira visita à capital de Ixcuina, o jovem minerador conhecia a fama da tradicional celebração anual do planeta. Entre o poente e a alvorada, milhares de pessoas participavam com entusiasmo da festa. Comiam, bebiam, gastavam dinheiro nas barracas de prêmios, cantavam para homenagear seus antepassados e também celebrar a vida em orgias que só terminavam com os primeiros raios dos sóis.

            – O que você pede demanda tempo e dinheiro. Tem certeza de que quer mesmo fazer? – disse o homem de cabelos escuros e crespos ao lado de Zander. Os fogos explodiam agora na forma de crisântemos brancos, flor que simbolizava a morte entre algumas culturas da Antiga Terra, além de ser também a planta preferida de Aishe. A lembrança da namorada fez um laço se apertar em torno do coração do rapaz, uma sensação que o acometia com frequência desde que ela morrera três dias antes.

            Zander se voltou na direção do homem que fizera a pergunta. Dzuge vestia um avental por cima de uma túnica azul e na mão levava uma colher de madeira; se usasse um chapéu comprido e branco, passaria facilmente por cozinheiro de algum restaurante.

            Mas Dzuge estava longe de ser um chef.

***

Além desse ebook , vale lembrar que tenho outros publicados pela editora:

astroporno

Vida e morte do último astro pornô da Terra 

Em um passado que nunca houve, androides protagonizam filmes para entretenimento adulto. Um decadente ator do gênero quer reencontrar o sucesso e a glória enquanto se adapta à nova realidade.

criança

Criança Feia

Depois de muito tempo, Cristina finalmente havia encontrado paz na vida. Mas a aparição de um fantasma acaba com a ilusão de tranquilidade, forçando a moça a encarar um passado de sofrimento.

space opera inferno

Inferno de Dantès

Guerras são travadas entre dois governos interestelares pela posse de artefatos tecnológicos de uma poderosa civilização alienígena já extinta. Para recuperá-los, homens, mulheres e animais geneticamente alterados se juntam ao Corpo de Fuzileiros Xenocientistas. Dantès Mercuria era um soldado exemplar, até o dia em que se viu condenado a passar o resto da vida na prisão por um crime que não cometeu. Mas a chance de voltar à ativa surge ao ser convocado para uma missão, onde ele lidará com os perigos de um mundo inóspito e a desconfiança de seus antigos colegas, enquanto tenta salvar a galáxia.

sherlock

Sherlock Holmes – Das reminiscências do Dr. Ormond Sacker, clínico geral

John Watson foi assassinado. Cabe a Sherlock Holmes e ao Dr. Ormond Sacker, o médico com quem divide o apartamento no 221B da Rua Baker e que é o biógrafo do detetive consultor, investigarem o crime brutal.

traga-me o escalpo

Traga-me o escalpo de Jesús Christopherson

O Oeste americano do século XIX é um lugar cheio de histórias fantásticas – tão fantásticas que muitos duvidam de sua veracidade. Barnaby Kapper é um desses céticos, até o dia em que é contratado para caçar um homem e acaba conhecendo o povoado de Cuernos del Diablo.

saltimbanco

Saltimbanco

Ao fazer um pedido especial aos deuses, um jovem artista descobre que até mesmo as divindades têm um senso de humor peculiar.

História especial de Halloween

O Halloween está aí e decidi escrever um conto com o tema. A diferença é que criei uma história interativa similar aos livros-jogos do tipo Escolha a sua própria aventura, tão populares nos anos de 1980, nos quais o leitor decide os rumos da trama ao assumir o papel do personagem principal. Sendo fã deles (ainda tenho vários volumes da coleção lançada pela Ediouro), sempre tive vontade de escrever um, mas só com programas específicos como o Twine eu finalmente consegui criar uma história do tipo.

Para combinar com a data, escolhi uma trama inspirada nos filmes slasher — subgênero do horror também muito popular no final do século passado por causa de películas como a série Halloween e Sexta-feira 13 –, mas adicionando o meu estilo (e humor) na história.

E assim surgiu Feriado Macabro. 

feriado macabro

Aqui, você não é um herói como nos antigos livros-jogos — você é um assassino psicopata nesse conto com 3 finais diferentes. Para tanto, clique no link acima, aperte o play e depois diga na seção dos comentários do post o que achou da história.

Saltimbanco

A Editora Draco publicou na semana passada mais um conto meu  – com a diferença que é gratuito! saltimbanco A história de Saltimbanco se passa em um cenário de fantasia onde um jovem artista – em busca de reconhecimento – faz um pedido especial aos deuses do lugar, apenas para descobrir que até as divindades têm um senso de humor peculiar. Esse conto teve origem em 2007 como exercício em uma oficina de escrita online (e que gerou outros textos): os integrantes deviam escrever sobre o tema proposto da semana que geralmente se limitava a uma palavra, nesse caso, palhaço. Fiz um brainstorm rápido e me decidi por um cenário de fantasia; foi quando surgiu na minha mente o personagem principal – o saltimbanco do título – e que seria um artista itinerante, mistura de malabarista, ator e… palhaço. Quando comecei a publicar pela Draco, o editor pediu alguns textos para o projeto Contos do Dragão e então me lembrei do Saltimbanco. Ele tem sido bem avaliado; se puder, deixe seus comentários lá na página da AmazonGoogle PlayKoboLivraria Cultura e Saraiva.

Além desse ebook, vale lembrar que tive outros publicados pela editora (para comprá-los online, clique nas imagens abaixo ou acesse os links na coluna à direita):

astroporno

Vida e morte do último astro pornô da Terra 

Em um passado que nunca houve, androides protagonizam filmes para entretenimento adulto. Um decadente ator do gênero quer reencontrar o sucesso e a glória enquanto se adapta à nova realidade.

criança

Criança Feia

Depois de muito tempo, Cristina finalmente havia encontrado paz na vida. Mas a aparição de um fantasma acaba com a ilusão de tranquilidade, forçando a moça a encarar um passado de sofrimento.

space opera inferno

Inferno de Dantès

Guerras são travadas entre dois governos interestelares pela posse de artefatos tecnológicos de uma poderosa civilização alienígena já extinta. Para recuperá-los, homens, mulheres e animais geneticamente alterados se juntam ao Corpo de Fuzileiros Xenocientistas. Dantès Mercuria era um soldado exemplar, até o dia em que se viu condenado a passar o resto da vida na prisão por um crime que não cometeu. Mas a chance de voltar à ativa surge ao ser convocado para uma missão, onde ele lidará com os perigos de um mundo inóspito e a desconfiança de seus antigos colegas, enquanto tenta salvar a galáxia.

sherlock

Sherlock Holmes – Das reminiscências do Dr. Ormond Sacker, clínico geral

John Watson foi assassinado. Cabe a Sherlock Holmes e ao Dr. Ormond Sacker, o médico com quem divide o apartamento no 221B da Rua Baker e que é o biógrafo do detetive consultor, investigarem o crime brutal.

traga-me o escalpo

Traga-me o escalpo de Jesús Christopherson

O Oeste americano do século XIX é um lugar cheio de histórias fantásticas – tão fantásticas que muitos duvidam de sua veracidade. Barnaby Kapper é um desses céticos, até o dia em que é contratado para caçar um homem e acaba conhecendo o povoado de Cuernos del Diablo.

Sonho ruim e outras histórias

Meu e-book Sonho ruim já está disponível por apenas R$ 1,99 na Amazon – ou você pode ler os contos gratuitamente aqui no blog.

sonho

 

O livro contém três contos de horror escritos entre 2007 e 2010 e publicados anteriormente em formato físico (revista Scarium) e digital (gratuitamente na revista 1.000 Universos, no site O Nerd Escritor e na plataforma Wattpad). Agora, resolvi reunir Augúrio, Sonho Ruim e Inveja em um só volume, aproveitando que as histórias exploram diferentes tipos de horror.

Passado, presente, futuro: o horror é constante não importa a época, seja através de divindades cósmicas, criaturas sobrenaturais ou terror psicológico.

No passado… a missão da Segunda Legião Augusta na província da Britânia era simples: conter os nativos que se revoltavam contra o Império Romano. Mas o que os legionários encontram é uma tribo fanática que venera deuses sedentos por sangue estrangeiro.

No presente… um médico brasileiro trabalha no Haiti com a esperança de melhorar a vida das pessoas. Quando crianças começam a morrer de forma inexplicável, ele descobre que a ciência nem sempre é a solução diante de antigas tradições.

No futuro… separados por quilômetros de distância da Terra, os habitantes de Marte pensam que estão seguros – até surgir a notícia de que os inimigos terráqueos criaram uma doença capaz de eliminar os marcianos geneticamente superiores.

Para ler os contos, compre o livro pela Amazon (clicando na imagem acima ou na coluna à direita) ou leia Augúrio, Sonho ruim e Inveja na seção de contos gratuitos do blog – a única diferença é que o e-book tem um posfácio que explica a origem das histórias.

Vale lembrar que não é necessário ter um Kindle para ler os e-books vendidos na Amazon: aplicativos de leitura para computador, celular e tablet estão disponíveis de graça.

Se você gostar das histórias, não esqueça de deixar um comentário na página do livro ou aqui mesmo no blog.

Augúrio

Fausto Aurélio Belisário, comandante da Segunda Legião Augusta, sorriu com a notícia que acabara de ouvir. O homem ao seu lado continuou a falar:

– Os revoltosos vivem em Drwgg, uma cidade a dois dias de marcha, senhor – Cornélio Félix relatou o informe de um dos espiões infiltrados no oeste da Britânia. Momentos antes, Félix havia comunicado ao seu superior hierárquico que os silures, uma tribo nativa da região, preparavam uma nova rebelião contra o Império Romano.

De uma varanda coberta, Belisário observava dezenas de legionários exercitando-se no pátio exterior do forte de Glevum. Uma chuva torrencial caía, algo bem conhecido dos romanos desde que as tropas do então imperador Cláudio invadiram aquela ilha úmida vinte e quatro anos atrás. A frequência era quase diária, principalmente no começo do verão.

Como comandante da legião, Belisário podia suportar intempéries diversas. O que ele não tolerava eram homens incapazes de governar.

Era o caso do atual procônsul da província da Britânia. Sem experiência militar anterior, Marco Trebélio Máximo decidira continuar o trabalho dos seus antecessores, consolidando o poder sobre as tribos já conquistadas e fazendo uma ou outra concessão para agradar aos nativos ao invés de batalhar por novos territórios. Transformara a ilha em um lugar seguro para o império.

E em um completo tédio para os legionários. Sem combates, não havia butim dos inimigos para complementar os salários das legiões. O descontentamento entre soldados e oficiais era cada vez maior; uma insurreição poderia estourar a qualquer momento entre as fileiras romanas.

Felizmente, havia os silures, habitantes das montanhas que tomavam conta da maior parte da paisagem. Aquele povo, de pele mais escura que a dos outros nativos, era famoso por sua beligerância; ao longo de quase três décadas de ocupação, os romanos nunca conseguiram derrotá-los por completo. Na opinião de Belisário, faltava alguém de pulso firme para lidar com os revoltosos. O comandante que eliminasse aquela resistência seria recompensado à altura por Nero, o sucessor de Cláudio.

Um relâmpago cortou o céu acinzentado, dividindo o firmamento em dois por um breve momento. Belisário sorriu.

– Isto é um bom sinal, Félix – Ele disse para o segundo em comando – Marte ouviu nossas preces.

 *

Os brados de guerra dos silures ecoavam pelas montanhas, suas espadas e lanças chocando-se contra os gládios e escudos dos legionários. Da retaguarda e protegido por soldados, Belisário observava o seu objetivo, localizado no topo de um morro rochoso: Drwgg, cercada por fossos, paliçadas e muros de pedra. Há mais de seis horas que os legionários tentavam invadi-la; cerca de quinhentos guerreiros, ostentando pinturas vermelhas de guerra pelos corpos, atacavam com tenacidade os três mil invasores. A chuva gelada, nunca bem-vinda, era agora inimiga dos romanos: tornara escorregadias as rochas do monte e num lodaçal a única estrada de acesso.

Soldados retrocediam das suas posições, passando por cima dos cadáveres dos seus companheiros, mutilados pelas lâminas dos silures. Um canto monocórdico soava a partir da cidade fortificada, propagando-se pelo campo de batalha.

Vendo tudo aquilo, Belisário lembrou-se das palavras de Plínio Ambrósio.

– Não vá – O sacerdote avisara dois dias atrás. O homem de tez pálida encontrava-se no templo dedicado ao culto do imperador, no forte em Glevum. Nas mãos, levava uma tigela de barro.

– É o que os deuses anunciam através deste sacrifício? – Belisário aproximou-se de Ambrósio e olhou para o interior da vasilha na qual repousavam as entranhas de uma ave recém-abatida; o cheiro de sangue tomava conta do templo pequeno. Obedecendo a uma tradição de séculos, Belisário consultara o vidente antes de partir para a batalha.

– Em parte, sim – A mão de Ambrósio revolveu as vísceras sem pressa, até retirar um diminuto coração rubro – Mas também tenho visto maus sinais ao redor do forte.

O sacerdote observou o coração com a atenção que um joalheiro devotaria a uma pedra preciosa.

– Corujas empoleiradas em árvores, por exemplo. Corvos voando em círculos sobre o forte – Ele abriu os dedos e o órgão da ave afundou na tigela com um som flácido – E tem o meu pesadelo.

– Não tem dormido bem? – Belisário reparou nas olheiras da cor de carvão do homem.

– Há dias que tenho o mesmo sonho – O sacerdote disse, seu olhar fixo na vasilha – São imagens de uma cidade de edifícios tão colossais que fariam Roma parecer uma aldeia. O sol brilha forte no alto, iluminando as imensas ruas desertas e fazendo as sombras dos prédios negros alastrarem-se em direção do Leste.

Um leve tremor agora atingia as mãos de Ambrósio.

– De repente, a noite surge. Ainda assim, vejo manchas enormes rastejando por um céu de estrelas que desconheço por completo. O único som ali é um cântico que ecoa pela cidade de pedra.

– Você precisa descansar – Belisário sabia como videntes geralmente tinham uma sensibilidade acima do normal – Esta é uma ótima oportunidade que tenho – ele pigarreou – que o império tem de esmagar estes nativos para sempre. Espero que não tenha comentado seus augúrios com qualquer um dos meus homens.

– Nada falei, mas isto não impede que eles conheçam os boatos que ouvi – Ambrósio deixou a tigela sobre uma mesa – Dizem que os silures de Drwgg foram banidos da tribo principal por abandonarem a adoração de suas divindades depois que um forasteiro surgiu divulgando um novo culto.

O sacerdote virou-se para Belisário.

– O estrangeiro tem cicatrizes por todo o rosto e a pele mais escura que a dos nativos, sendo chamado por eles de “Homem Negro”. Afirma ser o mensageiro de deuses poderosos e prometeu que, em troca de devoção absoluta, Drwgg seria protegida contra qualquer ataque.

O comandante balançou a cabeça.

– Tolice – disse e viu o outro homem fazer uma careta ligeira, evidentemente desgostoso com Belisário – Porém, se você faz tanta consideração, posso até realizar uma evocação.

Ele se referia ao ritual religioso no qual as divindades de uma cidade eram convidadas a abandoná-la, facilitando a conquista pelos romanos e, em troca, ganhavam a garantia de que seriam abrigadas e adoradas em Roma; a lenda contava que Cartago e a cidade etrusca de Veios foram conquistadas desse jeito. Belisário prosseguiu:

– Mas tenho certeza que será desnecessário.

– Senhor! – A voz de Félix trouxe Belisário de volta à batalha. O comandante viu o segundo em comando aproximar-se ofegante – Temos que nos retirar.

Belisário, cenho franzido, o encarou.

– E por que faríamos isto?

– Nossas perdas estão altas e não conseguimos avançar. Não sei como, mas os silures parecem mais resistentes do que o normal – Um estrondo de trovão soou no céu cinza, abafando por um instante o barulho do embate. A cantoria na cidade, no entanto, aumentou de intensidade – Vi um deles ser trespassado por uma lança e mesmo assim continuar a lutar, como se nada tivesse acontecido, sem qualquer emoção no rosto, só tombando quando o degolaram. Há um boato entre nossas fileiras de que essa cantoria é parte de uma cerimônia para sacrifício dos soldados capturados.

– Não importa – Belisário resmungou, pensando se o soldado havia conversado com Ambrósio. – Nós temos que tomar aquele morro e é o que faremos para –

Mas Félix não prestava atenção. Ao invés disto, falou:

– O que aconteceu com o céu?

Belisário seguiu o olhar de Félix. Nuvens cinzas, prenhes de água, desciam para quase tocarem o solo, criando uma névoa densa em volta dos romanos. O dia tornou-se noite em questão de segundos.

Novos trovões soaram, desta vez prolongados e semelhantes aos rugidos de alguma fera.

Foi quando Belisário viu as quatro silhuetas.

Inicialmente, pensou que fossem nuvens, mais escuras e compridas que as outras. Mudou de idéia ao ver uma película viscosa cobrir toda a extensão dos seus corpos negros e gigantescos, agora sólidos e sustentados no ar por duas asas de aparência coriácea. As criaturas revolviam-se com agilidade nos céus.

Os trovões voltaram e o romano percebeu a origem deles: aqueles seres comunicavam-se através dos sons cavernosos, exibindo presas do tamanho das lâminas de gládios.

E então eles mesclaram-se nas nuvens e desapareceram.

E os gritos desesperados dos soldados começaram, atravessando a neblina e chegando aos ouvidos de Belisário.

– Nós precisamos nos retirar – Félix disse, o tremor na voz indicando que ele também vira as criaturas.

O comandante sentiu as entranhas encolherem.

– Nunca – Belisário respondeu. Aquilo significaria o fim da sua carreira; nada de recompensas ou de desfile triunfal pelas avenidas de Roma.

Somente desgraça.

– O senhor precisa fazer alguma coisa, antes que seja tarde demais!

Outros gritos ecoaram de dentro da neblina, apenas para serem silenciados abruptamente. O vento soprou, trazendo o cheiro de sangue.

A breve imagem daquelas criaturas atravessou a mente de Belisário por um momento.

Sim, ele tinha que fazer algo. Algo que fora realizado em Veios e Cartago, centenas de anos atrás.

Respirando fundo, Belisário desembainhou a espada. Empunhando-a na direção de Drwgg, agora escondida pela névoa, ele começou a prece:

– Sob sua liderança, ó poderoso Marte, e inspirado pela tua força, eu avanço para destruir esta cidade e a ti prometo um décimo dos despojos.

As gotas de chuva gelada atingiam o corpo do romano como um chicote.

– Ao mesmo tempo, rogo às divindades que habitam Drwgg a abandoná-la e nos acompanharem até Roma, onde um templo será erguido para que sejam homenageadas, persistindo assim sua veneração.

E dizendo isso, Belisário abaixou a espada.

O som da batalha se dissipou, junto com a neblina. A chuva continuava a cair, mas não intensa como antes.

Belisário viu centenas de silures parados e de olhos arregalados, olhando de um lado para o outro, como se procurassem algo. Seus rostos pintados de vermelho expressavam mais do que surpresa.

Demonstravam medo, abandono e vulnerabilidade.

O comandante da Segunda Legião Augusta sorriu ao ordenar um novo ataque.

 * 

Belisário sorvia o vinho da taça. Sozinho em seu alojamento no forte de Glevum, ele escutava a comemoração dos legionários no pátio, agora satisfeitos depois da tomada de Drwgg três dias atrás. Era verdade que as baixas entre os romanos foram maiores do que esperado, mas Belisário sabia que a derrota daquele clã de silures soaria bem em Roma, com recompensas em médio prazo. Talvez até mesmo uma nomeação como procônsul.

O comandante pousou a taça na mesa e percebeu que não estava sozinho. Do outro lado do cômodo, um desconhecido vestido de negro o olhava.

Belisário tentou se mover, mas não conseguiu. As palavras estancaram na garganta.

A única coisa que ele podia fazer era observar o homem – uma teia de cicatrizes cobrindo a sua pele escura desde o crânio pelado até a mandíbula saliente – aproximar-se sem pressa. O estranho encostou os lábios no ouvido de Belisário.

– Obrigado – disse, a voz grave como um trovão – Eu já estava cansado desse clima úmido.

Um berro soou lá fora. Belisário sentiu o corpo obedecer-lhe mais uma vez e, com um salto, agarrou sua espada.

Mas o quarto estava vazio.

Um tumulto começava no pátio. Ele correu e viu Ambrósio debatendo-se no solo, saliva escorrendo pelo queixo e gritando palavras desconexas:

– Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath, Cthulhu! – Ao ver o comandante, ele o agarrou pelos ombros e concluiu numa voz trêmula – Você tem ideia do que fez a Roma?

E dizendo isso, Ambrósio soltou um uivo doloroso.

Belisário engoliu em seco: o sacerdote enlouquecera.

Aquilo não era um bom sinal.

(conto publicado originalmente na revista Scarium nº 21- Especial Lovecraft)