Quadrinhos na quarentena – parte 2

Continuando a colocar em dia a leitura de HQs digitais com super-heróis e ficção científica:

MS. MARVEL 2 continua sendo uma das minhas HQs favoritas de super-heróis, com uma personagem carismática e uma trama atraente.

EX MACHINA (livros 1 ao 5) começa com um primeiro volume não tão interessante quanto Saga ou Y – The Last Man, ambos de Brian K. Vaughan, mas o resto da série do super-herói que vira prefeito de Nova York compensa;

STAR TREK MIRROR BROKEN traz o famoso Universo Espelho para a Nova Geração, mostrando o lado sombrio da tripulação de Picard. Arte e roteiro bons, o que não acontece com a continuação THROUGH THE MIRROR, quando as tripulações dos dois universos se encontram;

SPACE PUNISHER mistura o Justiceiro com space opera. O resultado poderia até ser interessante, mas ficou muito ruim; a única coisa que dá para apreciar um pouco é a arte de Mark Texeira, inspirada nos pulps.

Quadrinhos na quarentena

Aproveitando a quarentena para ler HQs compradas há tempos (Comixology e Humble Bundle) ou disponíveis no Kindle Unlimited (coincidentemente, todas com personagens criados nos anos de 1960 e 1970):

RED SONJA – ART OF BLOOD AND FIRE traz novas aventuras da famosa guerreira ruiva, sempre com muita ação e dessa vez mais humor do que no primeiro volume, escrito também por Gail Simone e com arte de Walter Geovani.;

JAMES BOND 007 – VARGR tem uma trama escrita que, apesar de ser do Warren Ellis, poderia ser mais interessante, porém, vale muito pela arte de Jason Masters;

 

hqs quarentena

CAPTAIN MARVEL – HIGHER, FURTHER, FASTER, MORE, que foi escrita por Kelly Sue DeConnick e com desenhos de David Lopez, combina o gênero de super-heróis com space opera, numa mistura que me agradou muito;

QUARRY’S WAR é uma ótima história criminal, com roteiro do veterano Max Allan Collins e arte de Szymon Kudranski e Edu Menna, mostrando a vida de um ex-soldado do Vietnã, agora assassino profissional.

 

Resenha para Saltimbanco

Meu conto Saltimbanco — que pode ser lido gratuitamente em várias plataformas — continua sendo bem avaliado: desta vez, foi pelo site Only The Strong Survive.

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Na opinião de Verônica Inamonico, “o autor foi capaz de criar um enredo perfeito e de duração precisa, sem deixar faltar nada ao seu leitor” 🙂 Vale a pena ler o resto do artigo, que ainda resenha outros e-books também lançados pela Editora Draco.

Sagas Volume 1 – Espada e Magia

Quem gosta de histórias de Espada e Feitiçaria – o subgênero da Fantasia que se tornou popular a partir dos pulps dos anos 30 – sabe que ação e aventura são elementos fundamentais numa boa trama do tipo. Neste ponto, Sagas Volume 1 – Espada e Magia (Argonautas) não decepciona o leitor.

Lançada no final do ano passado, a antologia reúne quatro noveletas. Cesar Alcázar abre o volume com Lágrimas do Anjo da Morte, uma  história que se passa na Irlanda medieval que, apesar da presença do cristianismo, ainda tem influência da mitologia celta. O personagem principal é Anrath, mercenário perturbado pelo seu passado de lutas e que tem a vida salva por uma banshee, criatura do folclore irlandês, após ser traído pelo seu empregador. Além da instigante ambientação, outro ponto forte do conto é a narrativa movimentada.

A Cidadela de Elan conta a aventura de Kira, uma princesa guerreira que deve cumprir uma missão especial em uma cidade dominada por ladrões. A prosa rica em símiles de Georgette Silen (Lazarus) conduz muito bem a trama, com as cenas intensas de luta garantindo ótima leitura nessa história de segredo e intriga, tornando-a um dos destaques da antologia.

Outro destaque é A Dama da Casa de Wassir, de Rober Pinheiro. Ambientado no mesmo universo do livro Lordes de Thargor, a história traz o príncipe Atha’ny que, forçado a se casar para selar uma aliança entre dois clãs, deve agora resgatar um poderoso artefato místico. Apesar da estranheza inicial provocada pelo excesso de palavras da língua do universo de Thargor, o conto é bem desenvolvido e deixa um gancho ao final, despertando a vontade de conhecer novas aventuras naquele mundo.

Sem Lembranças daquele Inverno encerra o livro. Escrito por Duda Falcão, o conto mostra um mago contratando os serviços do cínico mercenário Atreil para recuperar uma joia mágica, roubada por uma feiticeira. É um conto ágil, mas que funcionaria melhor se certas cenas tivessem sido mostradas – fosse por pensamentos, sentidos e emoções dos personagens -, e não meramente narradas, o que acabou por enfraquecer a trama.

Vale destacar também o prefácio de Roberto de Sousa Causo, mostrando a origem  do gênero, além da belíssima capa de Nate Milliner e o caprichado projeto gráfico de Roberta Scheffer.

Sagas Volume 1 – Espada e Magia mostra que a Argonautas começou com o pé direito no mundo literário. A editora lançará em breve um volume dedicado ao Weird West, chamado apropriadamente de Estranho Oeste, e um outro com o tema Bruxaria.

Encyclopedia of Weird Westerns

Para muitos, o faroeste é um gênero literário e cinematográfico que está com o pé na cova já faz algum tempo – afinal, a sua Era de Ouro acabou por volta dos anos 70 e, tirando um filme ou outro que é premiado (caso de Os Imperdoáveis), o western não tem tanta relevância nestes dias. Mas existe um subgênero que mostra a possibilidade do faroeste não se prender a um cenário específico (Estados Unidos) ou época (século XIX), como mostra Paul Green na sua Encyclopedia of Weird Westerns: Supernatural and Science Fiction Elements in Novels, Pulps, Comics, Films, Television and Games (McFarland & Co).

Green – um quadrinista britânico entusiasta de faroestes –  pretendeu catalogar toda a produção disponível em seis tipos. Assim, temos o Weird Western puro (aquele com a presença do sobrenatural e fantasia, o que inclui vampiros, fantasmas, zumbis etc.), Weird Menace (tramas sobrenaturais, mas com uma explicação racional por trás), Science Fiction Western (tramas com temas ou elementos sci-fi, como tecnologia avançada ou extraterrestre), Space Western (histórias no espaço com elementos ou temas do faroeste), Steampunk (presença da tecnologia retrofuturista vitoriana) e Weird Western Romance (tramas românticas em um cenário do Velho Oeste envolvendo viajantes do tempo, espíritos, anjos etc.). Como se vê, é uma definição bem ampla e que garante vários exemplos.

Depois de uma longa – e inicialmente tediosa –  introdução para mostrar as origens do faroeste, Green dispõe o material de A a Z, com ano de lançamento, categoria (literatura, revista pulp, filme, série de TV, programa de rádio, desenho animado, HQ, game, RPG) e informações adicionais. Além disso, o livro traz também entradas para autores importantes do gênero como Edward Ellis (pioneiro da ficção científica americana com seu The Steam Man of Prairies, lançado em 1868), Joe R. Lansdale, Robert E. Howard, entre outros.

Ainda que o objetivo de Green fosse abranger todo tipo de weird west, existe uma ênfase nos quadrinhos, com verbetes mais elaborados e ilustrações (principalmente de material europeu), algo que não ocorre tanto com filmes e seriados para TV (muitos contando apenas com elenco e uma sinopse burocrática). Enquanto na categoria de desenhos animados existe uma prevalência de animes de ficção científica (caso de Cowboy Bebop), no RPG é quase uma catalogação do premiado jogo Deadlands e suas inúmeras expansões e derivados. Já na literatura, Green mostra que o gênero data do século XIX, marcando presença primeiro em dime novels e depois nos pulps do século seguinte.

Alguns dos artigos trazem nomes de velhos conhecidos da cultura pop, caso do personagem Jonah Hex ou da série televisiva (e depois filme) The Wild Wild West. Outros podem até não ser obscuros mas são definitivamente bizarros, fazendo jus ao gênero, caso de Cannibal! The Musical, filme que mistura canibalismo, índios japoneses e números musicais no Velho Oeste, ou do livro steampunk Zeppelins West, de Joe R. Lansdale, no qual Buffalo Bill – ou melhor, a sua cabeça conservada numa jarra com uísque e urina de porco – procura pelo Monstro de Frankenstein para assim descobrir um jeito de unir-se a um novo corpo, numa história que tem ainda a presença de Wild Bill Hickok, Annie Oakley, Touro Sentado, Capitão Nemo, Dr. Moreau, entre outros. Outra curiosidade é que Green mostra que existe produção cinematográfica bizarra não só em alguns spaghetti western da Itália, mas também no México, como a série El Jinete sin Cabeza, ou na Dinamarca, com a animação de fantoches Zombie Western: It came from the West.

O ponto negativo do livro fica por conta do preço alto para uma publicação sem capa dura e com ilustrações em preto e branco. Também chama a atenção que Green cite alguns exemplos extremos – como o mangá Solar Boy Django, uma trama de vampiros na qual a única ligação com o western são os nomes dos personagens (Django, Sabata etc.) – que parecem ter o propósito apenas de aumentar o número de páginas do livro.

Ainda assim, é uma obra que vale a pena para os aficionados ou mesmo curiosos. Uma vez que foi lançada no final de 2009, a enciclopedia não possui entradas de trabalhos mais recentes, como os quadrinhos Vampiro Americano ou a expansão Undead Nightmare do aclamado game Red Dead Redemption; felizmente, Green mantém um blog que serve de complemento ao livro.

Vale lembrar que algum material weird west estrangeiro já foi publicado no Brasil, como mostrou o escritor e jornalista Romeu Martins em uma série de posts no blog Cidade Phantástica, incluindo os excelentes Mágico Vento e Santo dos Assassinos. Em breve, o gênero terá representantes verdadeiramente brasileiros com o lançamento das antologias Cursed City (Estronho) e Sagas – Estranho Oeste (Argonautas), e do romance O Peregrino – Em Busca das Crianças Perdidas, de Tibor Moricz (Draco), entre outras novidades.

Imaginários – volumes 1 e 2

Quando se trata de antologia de gênero, não é raro que seu conteúdo seja desequilibrado: às vezes, textos bons ficam soterrados numa avalanche de contos ruins ou, na melhor das hipóteses, medianos. E a culpa, neste caso, é do organizador que não fez direito o trabalho de seleção.

Este não é o caso dos dois volumes da coleção Imaginários, da Editora Draco. Lançados simultaneamente no final de 2009, trazem vinte contos de fantasia, ficção científica e horror – reunidos por Eric Novello, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz – de alta qualidade, com a presença de autores veteranos e novatos do Brasil e de Portugal.

Gerson Lodi-Ribeiro abre muito bem o primeiro volume com a ficção científica Coleira de Amor. Numa sociedade em que emoções são manipuladas por biochips, um recém-viúvo tenta lidar com a dor da perda. Conto muito bem elaborado, com uma reviravolta de consequências trágicas.

Com Eu, A Sogra, Giulia Moon mostra a divertida história de uma bruxa moderna que, durante uma importante reunião de família, conhece a esposa do filho querido. Os pontos fortes deste excelente conto são a personagem principal e a ambientação.

Jorge Luis Calife colabora com Veio… Novamente, uma trama envolvendo o contato entre alienígenas e uma família americana no meio do deserto. É um conto com bom desenvolvimento – apesar do início morno -, mas com um final que deixa a desejar.

A Encruzilhada, de Ana Lúcia Merege, é o conto representante da fantasia medieval na antologia. Um mago procura por uma fonte mágica de água e acaba por encontrar um jovem que poderá ser seu aprendiz. A trama bem conduzida e os personagens são os atrativos deste conto.

Já Carlos Orsi mostra, com Por Toda a Eternidade, que “menos é mais”: nesta mistura de ficção científica e história policial de apenas três páginas, encontramos amor, traição, crime, raças alienígenas e uma reviravolta bem elaborada que leva a um final inesperado.

Twist my sobriety, de Flávio Medeiros, é outro conto excelente. Alienígenas de aparência vegetal  resolvem ajudar a Terra; neste cenário, um homem contrário à interferência das criaturas descobre um novo amor. O personagem principal, a ambientação e a conclusão são os destaques desta história.

Com Toque do Real: Óleo sobre Tela, Roberto de Souza Causo conta a história de um artista plástico que vê a realidade ao seu redor se transformar. O destaque neste ótimo conto fica pela descrição do mundo do personagem sendo alterado aos poucos.

Alma, de Osíris Reis, é um conto de ficção científica com cenário e personagem principal interessantes, mas que peca pelas descrições longas e cansativas, tornando a leitura arrastada em certos pontos.

Em Contigência, ou Tô pouco ligando, de Martha Argel, o personagem principal discorre, num tom bem-humorado, sobre a interferência do homem na natureza e o impacto provocado na realidade. É um ótimo conto com fundo ecológico e que vale uma releitura atenta.

Davi M. Gonzales cria uma atmosfera de suspense em Tensão Superficial, sabendo provocar curiosidade pela trama, na qual dois rapazes exploram um prédio antigo; infelizmente, o final fraco não corresponde ao suspense criado desde o início.

Richard Diegues fecha com chave de ouro o volume com Planeta Incorruptível, outra história sobre o contato da Terra com extraterrestres, mas que desta vez envolve religião na trama; uma boa mistura de ficção científica e horror.

O segundo volume traz contos dos organizadores, assim como de quatro autores portugueses:

Se Acordar Antes de Morrer, de João Barreiros, tem como personagem um robô programado para ser Papai Noel de loja, mas que acaba enfrentando inusitados clientes num Natal apocalíptico; é, sem dúvida, um dos melhores contos da antologia.

Saint-Claire Stockler mostra, em Às vezes eu os vejo, uma mulher que encontra estranhos seres numa cidade do interior; personagem e ambientação aqui garantem um ótimo conto, ainda que o final deixe a desejar.

Flor do Trovão, de Jorge Candeias, conta a história de uma sociedade alienígena e da sua crença na vinda de um salvador, neste caso, a personagem principal. Narrativa, personagem e cenário combinam com perfeição neste conto que tem um quê de fábula.

Na ficção científica Toque Invisível, de Alexandre Heradia, uma empresa desenvolve acidentalmente uma inteligência artificial. Apesar do tema batido e do enredo previsível em um primeiro momento, o conto tem um bom desfecho.

O Cheiro de Suor, de Eric Novello, apresenta um personagem perturbado – e com a habilidade de virar lobisomem –  que se envolve com o submundo do crime, na melhor tradição noir; é uma excelente mistura de fantasia com história policial.

Sacha Ramos, com A Rosa Negra, mostra um rapaz forçado a cuidar dos negócios da família e que deseja deixar aquela vida para trás. História com começo e desenvolvimento interessantes, mas com um final apressado que acaba por decepcionar.

A Casa de Um Homem, de Luís Filipe Silva, é uma ficção científica com uma ótima dose de ação, na qual um homem procura pela sua casa roubada. Os destaques do conto são a personagem principal e a ambientação opressiva.

Tibor Moricz mostra, em Eu te amo, papai, uma sociedade que explora crianças para gerar energia, até que uma delas  se rebela por um único motivo: encontrar o pai. A trama é muito bem conduzida, levando a um final inesperado e coerente com a história.

Uma Questão de Língua de André Carneiro, encerra o volume, com a trama de um homem tentando conquistar uma moça, apreciadora de livros raros.  O estilo e a narrativa são os pontos fortes  neste conto.

Além dos contos selecionados, vale ressaltar o ótimo trabalho de produção da editora, a começar pelas capas ilustradas por Roko. E para quem gostou da coleção, a Draco vai lançar um terceiro volume, desta vez organizado por Erick Santos Cardoso e com textos de dez autores – inclusive eu – na Fantasticon 2010 .

Audrey’s Door

Casas mal-assombradas já foram exploradas à exaustão, tanto na literatura quanto no cinema de horror; basta uma olhada no verbete da Wikipedia para verificar que casarões habitados por fantasmas e/ou demônios estão por aí desde a época do romance gótico. Este é um dos motivos para que seja difícil produzir algo realmente inovador no gênero.

Sarah Langan sabe bem disso. No prefácio de Audrey’s Door, romance vencedor desse ano do  Bram Stoker Award – prêmio da Horror Writers Associoation (HWA) -, ela já deixa claro que a obra foi inspirada pelos clássicos A Assombração da Casa da Colina ( Shirley Jackson), O Iluminado (Stephen King) e O Bebê de Rosemary (Ira Levin). Por isso mesmo que Langan não se preocupa em reinventar a roda, mas sim contar uma boa história.

A personagem principal é Audrey Lucas, uma arquiteta do interior dos EUA e que agora mora em Nova York. Recém-separada do namorado e portadora de transtorno obsessivo-compulsivo, ela é atraída pelo aluguel barato de um apartamento no Breviary, um prédio luxuoso erguido no estilo do Naturalismo Caótico. É ali, vivendo numa estrutura de ângulos estranhos e aparentemente impossível de ficar em pé, que a já transtornada Audrey vai ter alucinações e sonhos bizarros envolvendo a construção de uma porta, enquanto é observada com atenção pelos habitantes idosos do lugar.

Langan é uma escritora de talento – como eu já havia verificado em The Keeper, a história de uma mulher que assombra uma cidadezinha decadente – que não precisa usar de truques baratos para assustar ou manipular o leitor. Os pontos fortes aqui são a caracterização de Audrey e a recriação da história macabra do Breviary  e seus moradores através de artigos de jornais, cartas etc.  São Audrey, suas manias e sua relação com o prédio que conduzem a trama nem tão original.

Ainda que não seja perturbador como The Keeper, Audrey’s Door é uma ótima leitura. O livro é menos horror e mais suspense; se alguém espera por sustos manjados, melhor procurar em outro lugar.

É uma pena que Langan seja ainda desconhecida no Brasil. Vencedora por três vezes do Bram Stoker e  vista com bons olhos pela crítica não-especializada, já era hora de alguma editora publicá-la por aqui.