Dois e-books em promoção

Os meus contos em e-books Vida e morte do último astro pornô da Terra e Traga-me o escalpo de Jesús Christopherson, ambos publicados pela Draco, estão em promoção na Amazon: cada um sai por R$ 1,79 — um desconto de 40% sobre o preço original!

astro escalpo

Mas corra pois não sei quando a promoção acaba. Vale lembrar que é possível ler todos estas histórias não só no Kindle, mas também no PC, Mac, iPad, tablets e celulares com Android.

 

 

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A arte mística de minerar teratolítios em Ixcuina

A Editora Draco lançou no último final de semana mais um conto meu em formato digital: A arte mística de minerar teratolítios em Ixcuina, história que faz parte da coletânea Erótica Fantástica – volume 2, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro.

ixcuina

A primeira versão dessa história surgiu em 2008, com o objetivo de conseguir uma vaga numa coletânea de literatura fantástica. Fazia pouco tempo que havia lido The New Weird, antologia organizada por Jeff e Ann VanderMeer que trazia contos desse gênero literário, na época muito debatido no Orkut (lembram dele?) e em listas de discussões do Yahoo (ainda frequentam alguma?). Daí que, inspirado pela leitura de algumas daquelas histórias, resolvi tentar — ênfase em tentar — escrever meu próprio conto new weird. Eu gostei do resultado final da história, mas os organizadores da coletânea não pensaram assim; com a recusa dela, acabei por “engavetá-la”.

Mas então, três anos depois, surgiu a chamada para Erótica Fantástica, um projeto do Gerson que é “sucessor espiritual” da antologia com a mesma temática e também organizada por ele chamada Como era gostosa minha alienígena! (Ano Luz, 2002). Resolvi que era uma boa hora para reescrever a história, acrescentando alguns detalhes e eliminando outros, aproveitando o cenário que mistura ficção científica e fantasia com erotismo.

E para minha satisfação, a história foi aceita, sendo programada para fazer parte do segundo volume desse belíssimo projeto gráfico da Draco (como de costume, diga-se de passagem) e ao lado de outros autores talentosos.

Da sinopse:

No mundo de Ixcuina, as pessoas celebram a Noite dos Mortos com comida, bebida e orgias até o nascer dos sóis gêmeos. É também a única oportunidade no ano para, através da magia, um rapaz invocar o espírito da amada recém-falecida e encontrá-la mais uma vez.

Trecho:

  O festival da Noite dos Mortos começou com gritos de euforia, logo abafados pelos estouros dos fogos de artifício assim que o segundo sol se pôs. Pela janela daquela casa encravada no morro, Zander viu o show pirotécnico iluminar a cidade abaixo, seus prédios cúbicos espalhados ao redor dos descomunais Grotescos.

            Ainda que fosse a sua primeira visita à capital de Ixcuina, o jovem minerador conhecia a fama da tradicional celebração anual do planeta. Entre o poente e a alvorada, milhares de pessoas participavam com entusiasmo da festa. Comiam, bebiam, gastavam dinheiro nas barracas de prêmios, cantavam para homenagear seus antepassados e também celebrar a vida em orgias que só terminavam com os primeiros raios dos sóis.

            – O que você pede demanda tempo e dinheiro. Tem certeza de que quer mesmo fazer? – disse o homem de cabelos escuros e crespos ao lado de Zander. Os fogos explodiam agora na forma de crisântemos brancos, flor que simbolizava a morte entre algumas culturas da Antiga Terra, além de ser também a planta preferida de Aishe. A lembrança da namorada fez um laço se apertar em torno do coração do rapaz, uma sensação que o acometia com frequência desde que ela morrera três dias antes.

            Zander se voltou na direção do homem que fizera a pergunta. Dzuge vestia um avental por cima de uma túnica azul e na mão levava uma colher de madeira; se usasse um chapéu comprido e branco, passaria facilmente por cozinheiro de algum restaurante.

            Mas Dzuge estava longe de ser um chef.

***

Além desse ebook , vale lembrar que tenho outros publicados pela editora:

astroporno

Vida e morte do último astro pornô da Terra 

Em um passado que nunca houve, androides protagonizam filmes para entretenimento adulto. Um decadente ator do gênero quer reencontrar o sucesso e a glória enquanto se adapta à nova realidade.

criança

Criança Feia

Depois de muito tempo, Cristina finalmente havia encontrado paz na vida. Mas a aparição de um fantasma acaba com a ilusão de tranquilidade, forçando a moça a encarar um passado de sofrimento.

space opera inferno

Inferno de Dantès

Guerras são travadas entre dois governos interestelares pela posse de artefatos tecnológicos de uma poderosa civilização alienígena já extinta. Para recuperá-los, homens, mulheres e animais geneticamente alterados se juntam ao Corpo de Fuzileiros Xenocientistas. Dantès Mercuria era um soldado exemplar, até o dia em que se viu condenado a passar o resto da vida na prisão por um crime que não cometeu. Mas a chance de voltar à ativa surge ao ser convocado para uma missão, onde ele lidará com os perigos de um mundo inóspito e a desconfiança de seus antigos colegas, enquanto tenta salvar a galáxia.

sherlock

Sherlock Holmes – Das reminiscências do Dr. Ormond Sacker, clínico geral

John Watson foi assassinado. Cabe a Sherlock Holmes e ao Dr. Ormond Sacker, o médico com quem divide o apartamento no 221B da Rua Baker e que é o biógrafo do detetive consultor, investigarem o crime brutal.

traga-me o escalpo

Traga-me o escalpo de Jesús Christopherson

O Oeste americano do século XIX é um lugar cheio de histórias fantásticas – tão fantásticas que muitos duvidam de sua veracidade. Barnaby Kapper é um desses céticos, até o dia em que é contratado para caçar um homem e acaba conhecendo o povoado de Cuernos del Diablo.

saltimbanco

Saltimbanco

Ao fazer um pedido especial aos deuses, um jovem artista descobre que até mesmo as divindades têm um senso de humor peculiar.

História especial de Halloween

O Halloween está aí e decidi escrever um conto com o tema. A diferença é que criei uma história interativa similar aos livros-jogos do tipo Escolha a sua própria aventura, tão populares nos anos de 1980, nos quais o leitor decide os rumos da trama ao assumir o papel do personagem principal. Sendo fã deles (ainda tenho vários volumes da coleção lançada pela Ediouro), sempre tive vontade de escrever um, mas só com programas específicos como o Twine eu finalmente consegui criar uma história do tipo.

Para combinar com a data, escolhi uma trama inspirada nos filmes slasher — subgênero do horror também muito popular no final do século passado por causa de películas como a série Halloween e Sexta-feira 13 –, mas adicionando o meu estilo (e humor) na história.

E assim surgiu Feriado Macabro. 

feriado macabro

Aqui, você não é um herói como nos antigos livros-jogos — você é um assassino psicopata nesse conto com 3 finais diferentes. Para tanto, clique no link acima, aperte o play e depois diga na seção dos comentários do post o que achou da história.

Inveja

Cecyla mirou-se no espelho pela terceira vez em menos de um minuto. O reflexo continuava a mostrar a mesma jovem de feições delicadas e corpo atraente, pele bronzeada contrastando com cabelos loiros.

Nada de anormal.

Por enquanto.

Serviu-se de uma taça de vinho na cozinha da casa, observando o sol descer no horizonte marciano, a luz filtrada pelo domo que protegia a capital do planeta vermelho das ameaças exteriores. Seu olhar se fixou numa pequena mancha azulada no céu: aquela era a Terra, de onde seus pais haviam fugido cinco décadas antes.

E então Cecyla imaginou por um instante como seria viver naquele mundo. O pensamento a desesperou, mesmo que só conhecesse os terráqueos através de vídeos na iNet; considerava os pais e os outros primeiros habitantes de Marte como pré-marcianos ou, ainda, transhumanos pioneiros.

Com os lábios trêmulos, tomou um gole demorado da taça. Lá fora, as sombras desciam sobre canais, vales e cânions.

Um som agudo atraiu sua atenção para o monitor na sala conectado à iNet. A tela mostrava mais um dos avisos do governo marciano, transmitidos desde o meio-dia quando a população fora ordenada, sem maiores explicações, a deixar os afazeres e voltar para suas casas. Agora, o aviso pedia que todos os cidadãos continuassem em seus lares até que a situação se normalizasse – desobediência seria punida com prisão imediata.

E só. Nenhuma informação sobre o que acontecera ou o porquê da ordem repentina. Desde que voltara correndo da universidade, ela tentara obter maiores notícias com todos que conhecia, conseguindo apenas boatos diversos.

– Os terráqueos não se esqueceram da surra que levaram – Nadia dissera, os olhos grandes e de um dourado tão intenso quanto o do sol. A melhor amiga de Cecyla se referia ao conflito militar iniciado quando Marte declarou que, cansada dos pesados tributos, não seria mais uma colônia da Terra. Após infrutíferas conversas diplomáticas, os terráqueos tentaram invadir o planeta vermelho. Os marcianos os derrotaram com facilidade, encerrando a guerra três meses atrás.

Era o que todos em Marte pensavam.

Já a Terra tinha uma opinião diferente.

– Você sabe como eles são mesquinhos, não é? – Nadia continuou. As aulas de história haviam ensinado à Cecyla que boa parte dos terráqueos achava absurda a ideia de transhumanismo: a procura por melhoras de características físicas e mentais, usando engenharia genética e nanotecnologia, seria uma afronta à natureza. Por isto seus pais exilaram-se no planeta vermelho.

Nessas ocasiões, ela sempre concluía, assim como vários dos seus compatriotas, que tudo era uma questão de inveja por parte dos “vizinhos”. Os transhumanos eram parte de uma elite de cientistas visionários, donos de corpos perfeitos e mentes centenas de vezes mais aguçadas que as dos humanos, seres confinados naquelas estruturas frágeis, cheias de imperfeições biológicas e sujeitas a todo tipo de enfermidade.

– A Terra quer vingança – E Nadia contou o rumor que ouvira: de alguma forma, os terráqueos haviam introduzido em Marte uma doença infecciosa, engenhada para minar o sistema imunológico transhumano, alastrando-se velozmente e com os primeiros sintomas manifestando-se em horas. Talvez até existisse uma chance de cura se a doença fosse diagnosticada no início.

Várias imagens surgiram no monitor de Cecyla, transmitidas pela amiga: mostravam, ao longo da história terráquea, humanos deformados pela peste bubônica, varíola e sífilis, definhando em hospitais imundos, largados em valas comuns, empilhados enquanto chamas alaranjadas os consumiam para evitar maior contaminação.

A tal infecção, diziam os boatos, lembrava às vítimas marcianas que elas não eram tão perfeitas como pensavam.

– Os terráqueos querem nos destranshumanizar, Cecy.

Foi naquele instante que a tela enegreceu; segundos depois, um informe do governo aparecera noticiando que, ante boatos infundados, a iNet estava sob intervenção para evitar pânico desnecessário.

E agora Cecyla estava completamente isolada.

Ela abriu uma segunda garrafa de vinho. A noite era total fora do domo; na penumbra da casa, não conseguia sequer ver seu reflexo no espelho do corredor. Outro aviso surgiu, informando que os cidadãos deveriam esperar a chegada de uma equipe de profissionais médicos. Cecyla engoliu em seco: pelo visto, o boato estava certo.

Um gemido soou na porta da frente.

O coração dela bateu mais rápido; seus ouvidos apurados captaram o som se repetir com força.

Alguém lá fora sentia muita dor. Cautelosamente, ela se aproximou da janela. Uma pessoa se encontrava em posição fetal sobre o capacho da entrada, olhos fechados e respiração ofegante. Sob as luzes dos postes públicos, feridas negras e úmidas brilhavam, desfigurando toda a pele.

Perto dali, um veículo freou bruscamente, as portas abrindo-se com rapidez.

A vítima virou a cabeça na direção da janela e levantou as pálpebras. Úlceras pequenas se espalhavam ao redor dos grandes olhos de tom dourado – um dourado tão intenso quanto o do sol.

Cecyla sufocou um grito, levando as mãos à boca, e acabou por apalpar um caroço pequeno e doloroso logo acima dos lábios.

Passos apressados ecoaram na rua. Um grupo de homens e mulheres em trajes brancos de proteção – a familiar cruz vermelha e simétrica estampada nos torsos – aproximava-se.

Médicos, finalmente. Ainda existia uma chance de salvação.

E então ela reparou nos tubos metálicos compridos que empunhavam. Na extremidade de cada um deles, brilhava uma chama alaranjada.

Cecyla se afastou da janela. A campainha tocou segundos depois.

(conto publicado originalmente no site O Nerd Escritor)

Sonho ruim

O pequeno caixão branco reluzia sob o sol inclemente do Haiti, enquanto o choro de uma mãe quebrava o silêncio do cortejo fúnebre. Da porta da sua clínica, Marcos Leme observava a procissão caminhar até o cemitério, repouso final da quarta criança a morrer naquele mês em Saint-Claire.

– O que tem de errado nesse lugar? – murmurou, passando a mão pelos cabelos castanhos que começavam a encanecer nas têmporas. Com trinta e dois anos de idade, o médico brasileiro parecia no momento ter uma década a mais.

Em tese, a resposta para a pergunta era fácil: habitada por cerca de duas mil almas, Saint-Claire tinha os piores índices sociais do Haiti, o que não era novidade na nação mais pobre das Américas. Saneamento básico, saúde pública e ruas asfaltadas eram palavras desconhecidas naquela área rural ao oeste do país. A situação só piorou após o devastador terremoto do começo de 2010: com a capital Porto Príncipe devastada, milhares de sobreviventes ficaram desabrigados, obrigados a sobreviver em acampamentos ou a se refugiar no interior menos atingido pela catástrofe.

– Você fez tudo que era possível – disse Nicole Ames, a jovem haitiana que era a única enfermeira no consultório. Tal como Marcos, ela chegara no mês anterior, vindo da capital.

O médico meneou a cabeça. Sabia do desafio que tinha desde o momento em que se inscreveu cinco anos antes no programa de ajuda humanitário de uma ONG internacional. Trabalhando no Brasil, África e Ásia, presenciou todo tipo de morte infantil.

Mas era a primeira vez que se deparava com óbitos inexplicáveis.

Fora o caso de Henri, que agora seguia para seu descanso final. Seus pais procuraram Marcos no dia anterior, trazendo o bebê de meio ano de vida com um quadro de fraqueza geral.

O médico detectou mais do que isso. Um odor forte acompanhava o paciente, algo que ele havia notado nas outras crianças. Sua origem, ficou sabendo, eram loções de ervas nativas usadas por muitos curandeiros adeptos do vodu. Não era novidade para Marcos que aquelas pessoas do interior, supersticiosas e sem instrução formal, procuravam os sacerdotes em caso de doença. Ali, onde o vodu fazia parte do dia a dia, a medicina era o último recurso.

Mas a ciência também não conseguira ajudar Henri. Mesmo apresentando uma melhora horas após dar entrada e ficando em observação pela noite, a criança faleceu pela manhã sem qualquer explicação.

Assim como acontecera antes com os pequenos Jean-Pierre, Françoise e Daniele.

Encostado na soleira, Marcos sentiu um calafrio percorrer seu corpo fatigado. Pensou que adoeceria, depois do trabalho incessante em tentar salvar Henri.

Foi quando viu a mulher do outro lado da rua de terra. Era uma anciã franzina de pele escura, o rosto sulcado por uma teia de rugas profundas, usando um vestido de chita verde e na cabeça um lenço vermelho. Seus olhos negros encaravam com firmeza o consultório.

Outro calafrio atingiu o médico.

Não era a primeira vez que via a mulher. Na ocasião da morte de Daniele, dez dias atrás, Madame Solange posicionara-se na calçada, observando em silêncio a clínica. Nicole explicara que a anciã era uma mambo, o nome dado às sacerdotisas do vodu que se comunicavam com seus espíritos protetores, conhecidos como loas; Madame Solange tinha a fama de ser uma das mambos mais conceituadas em Saint-Claire.

E agora lá estava a mulher examinando o médico, sozinha depois que o cortejo dobrou a esquina. A temperatura estava bem próxima dos quarenta graus, mas Marcos sentia frio. Ele não sabia o que Madame Solange queria, porém uma coisa era certa:

A presença dela o incomodava.

Ele precisava descobrir o porquê.

Marcos atravessou a rua de terra em direção da mambo. A mulher continuou a encará-lo, mas assim que ele se aproximou, passou a tagarelar em creole.

– Sinto muito, senhora, não entendo uma palavra – Marcos tentou interromper o monólogo, mas em vão: Madame Solange matraqueava sem parar, os braços finos movendo-se como ramos de árvore numa ventania.

E sem aviso, ela virou as costas e foi embora, deixando Marcos sozinho no meio da calçada.

*

– O que Madame Solange tanto disse, docteur? – Nicole perguntou, baixando a xícara de café recém-coado por Charlotte Lambert, a jovem empregada que no momento lavava a louça ali na cozinha. Assim como Nicole, a moça também era funcionária da ONG, com a diferença que era nativa da cidade. Com vinte anos, ela era responsável não só pela limpeza, mas também pelos serviços gerais, o que incluía manter o gerador a diesel da clínica funcionando, algo vital em um local onde o fornecimento de eletricidade era instável.

– Eu realmente não sei – O médico encolheu os ombros – Tinha uma palavra que ela não parava de repetir. Parecia ser “laguru”, “loguru” ou talvez “luguru” –

O ruído de algo se espatifando interrompeu o rapaz.

– Desculpem-me – Charlotte balbuciou, recolhendo os cacos da xícara que deixara cair.

– Tudo bem. Estamos todos exaustos depois desses últimos dias – Marcos bocejou – É melhor eu ir para casa e descansar.

O médico morava numa construção simples de alvenaria, um luxo se comparado com os casebres de madeira tão comuns em Saint-Claire. Após um banho, ele se deitou e esperou por um sono que nunca chegava. Seria muito fácil colocar a culpa no calor sufocante do Caribe ou no ventilador barulhento que não refrescava o lugar.

A razão era outra, Marcos bem sabia. Ele nunca havia enfrentado uma dificuldade daquele tamanho na curta carreira que tinha, vendo sua confiança ser minada aos poucos a cada morte infantil. Para muitos dos seus colegas de universidade, Marcos Leme – nascido numa família rica e graduado no melhor curso do Brasil – não passava de um idealista por perder seu tempo em países miseráveis, quando poderia ganhar muito dinheiro como dermatologista ou cirurgião plástico numa clínica particular do Primeiro Mundo; era o mesmo pensamento dos pais e da ex-noiva que deixara no Brasil.

Mas ele sempre quisera ser um médico de verdade, um que fizesse diferença no mundo ao trazer alívio aos necessitados com a ajuda da ciência, resolvendo assim os problemas do mundo. Fosse uma visão romântica da profissão ou ingenuidade, aquela era uma certeza na vida que Marcos tinha como norte.

Uma convicção que agora estava sendo posta à prova.

Marcos fechou as pálpebras. A imagem dos olhos negros de Madame Solange, tão escuros que era impossível distinguir a pupila da íris, surgiu na sua mente.

O que a mulher tanto dizia?

Marcos só descansaria quando falasse com a mambo.

*

A casa de Solange era localizada ao lado de um riacho nos arredores de Saint-Claire. Nos fundos da propriedade ficava o oufò, o templo onde ela realizava as cerimônias. A noite começava a surgir quando Marcos atravessou o portão de madeira que dava acesso ao quintal. Após caminhar alguns metros, encontrou o oufò, um barracão de madeira e telhado de zinco, decorado por bandeirolas vermelhas e verdes. Imagens de diversos santos católicos, sincretizados pelo vodu, estavam penduradas nas paredes pintadas de azul. No centro do chão de terra batida erguia-se uma coluna de madeira com um arco-íris e uma serpente desenhadas nela: era o poteau-mitan, uma espécie de ponte espiritual pela qual os loas chegavam para possuir e se comunicar com seus adoradores.

A decoração colorida do oufò desaparecia conforme as sombras da noite avançavam. O lugar parecia deserto. Hoje, pelo que Marcos soubera, não era dia de culto. Da entrada do barracão, ele chamou por Madame Solange.

Nenhuma resposta.

Marcos avançou mais alguns passos. Do fundo do templo, veio um ruído, junto com um cheiro pungente.

– Tem alguém aí? – Marcos fez a pergunta em voz alta.

A resposta foi outro som que agora pareceu aos ouvidos do rapaz um gemido de dor. Marcos apertou um interruptor de luz próximo da entrada do oufò e uma única lâmpada incandescente se acendeu para mostrar Madame Solange em meio a uma poça de sangue.

O rapaz correu em direção da mambo. Palavras em creole eram debilmente sussurradas por ela.

– Não se mexa, por favor – disse Marcos, vendo a mulher entrar em estado de choque com o torso dilacerado. Solange continuou a balbuciar:

– L-lu… luga… lugaru…

Era a mesma palavra repetida enfaticamente pela manhã. Revirando os olhos, Madame Solange soltou seu último suspiro.

Lugaru – disse uma voz atrás do médico. Marcos voltou-se e viu Charlotte – Era o que ela tentava avisar ao senhor.

– O que você está fazendo aqui?

– Eu ajudo a mambo durante os cultos – A moça aproximou-se, levando na mão uma sacola de plástico azul. – Desde o dia que Daniele morreu, Madame Solange suspeitou da presença de um lugaru na cidade.

O médico encolheu os ombros.

– Desculpe, mas não sei do que você está falando.

Charlotte olhou para a mulher estendida no solo sagrado.

– Lugaru é uma pessoa que fez um pacto com um loa maligno em troca de favores mágicos. Noutras vezes, é alvo da maldição de um bòkò, um feiticeiro que trabalha com magia negra. De qualquer modo, a criatura precisa se alimentar de crianças para sobreviver.

Marcos pigarreou.

– Charlotte, não quero ser desrespeitoso com suas crenças, mas –

– De dia, o monstro anda, bebe e come feito gente, como eu e você. Mas pela a noite, esfrega uma poção de ervas pelo corpo até a pele sair. Depois de guardá-la num lugar fresco, está pronto para caçar, se alimentando aos poucos do sangue dos pequeninos. Quando eles acordam pela manhã, pensam que foi tudo um sonho ruim – Os olhos dela se encheram de lágrimas – Até o dia em que não acordam mais.

A moça ajoelhou-se perto da sacerdotisa falecida:

– Madame Solange pediu que eu ajudasse a fazer um amuleto contra o monstro – Da sacola que carregava, retirou uma pequena bola de pano multicolorida, enfeitada com lantejoulas. Marcos vira objetos como aquele pela cidade: era um wanga, talismã que protegia contra vários tipos de mal e cujo conteúdo era feito de ervas, terra e, diziam alguns, restos de cadáveres – Mas lugaru foi mais rápido.

Ela voltou-se para o médico.

– Sei que é difícil você acreditar nisso, doutor, mas peço que retorne para a clínica. Outra criança foi internada.

Charlotte levantou-se e colocou a wanga nas mãos de Marcos:

– Não deixe que ela morra.

*

A pequena Adele dormia tranquila em um leito da clínica. Numa cadeira ao lado, Marcos a vigiava.

Duas horas antes, ele chegara correndo para atender a garota com os mesmos sintomas dos pacientes anteriores. Após aplicar o tratamento inicial, o médico recomendou o pernoite dela na clínica para garantir que os remédios fossem devidamente ministrados.

Marcos bem sabia que esta não era a única razão para manter a criança por perto. As palavras de Charlotte ainda ecoavam em sua mente. No bolso da calça, a wanga pesava como uma pedra.

Depois de dispensar Nicole, ele sentou-se numa desconfortável cadeira de metal, ajustou a luminária para não incomodar a paciente e começou a ler uma revista para manter-se acordado, as pálpebras cada vez mais pesadas. Lá fora, cigarras cantavam, uma cacofonia que se misturava com o barulho do motor da geladeira na cozinha e com a respiração pesada da pequena criança.

Um ruído despertou o médico.

Levantou-se, o coração acelerado. Na cama de metal branco, Adele ressonava, o soro preso ao braço fino e delicado.

Consultou o relógio: já era de madrugada. Marcos virou a cabeça de um lado para o outro, procurando por algo diferente.

Um cheiro estranho invadiu suas narinas.

Ele o reconheceu de imediato: era igual ao das loções empregadas pelos sacerdotes voduístas. Franzindo o nariz, percebeu que o fedor vinha da cozinha. Lá, o odor não só era mais forte como também sufocante, uma mistura de suor azedo e esgoto a céu aberto. Avançou pelo cômodo e verificou que sua origem era a velha geladeira, usada para proteger vacinas do clima tórrido.

Marcos abriu a porta do eletrodoméstico. Uma nuvem branca e refrescante o recepcionou, junto com o odor estranho. Estreitando os olhos, viu uma jarra de vidro fosco e tampada por um pano; com cuidado, afastou os medicamentos e trouxe o recipiente para perto.

A jarra não possuía qualquer identificação. Marcos a colocou na mesa, notando como era pesada. Prendendo a respiração para evitar o fedor, ele a destampou.

Adele gritou no quarto.

Marcos largou a jarra e disparou para o cômodo.

Algo se virou na direção do rapaz. A iluminação precária do quarto mostrava a silhueta de uma mulher – quadris largos, cintura fina, mamas desenvolvidas. Não havia sinal de cabelos, já que também não possuía pele: músculos vermelhos e viscosos cobriam a sua estrutura óssea, lembrando ao médico os modelos plásticos de anatomia que estudara na faculdade.

A semelhança com uma figura humana acabava aí. As mãos eram garras curvas e afiadas; da boca, atulhada de pequenos dentes triangulares, projetava-se uma língua comprida, pela qual um filete de saliva escorria e caía na assustada Adele.

Aquilo era uma lugaru.

E pelo visto, não gostava de ser interrompida nas suas refeições: com um rosnado, a criatura saltou sobre Marcos.

O rapaz só teve tempo de se jogar no chão para evitar o ataque. Quando se levantou, viu o monstro de pernas arqueadas, preparando-se para um novo bote.

E então a lugaru estancou, pupilas brilhantes fixas no chão. Marcos seguiu o olhar e viu a wanga, caída do seu bolso no ataque.

A criatura tremia como se tivesse frio.

Ou medo do amuleto.

A lugaru rosnava, mostrando os dentes, procurando passar pela wanga, mas sempre retrocedendo na tentativa.

Na cama, Adele chorava.

Marcos não teria outra chance para salvar a criança. A única arma por perto era a cadeira de metal.

Ele a agarrou, ergueu e bateu repetidamente na lugaru, mirando tronco e cabeça. A criatura recuou, fosse pelos golpes ou pela wanga, até ficar encurralada no canto do quarto.

– Não me mate – As palavras saíram debilmente da boca sem lábios da lugaru. – Eu não tenho culpa.

Marcos, segurando a cadeira deformada pelos impactos, mirou aqueles olhos suplicantes por uma fração de segundo.

E então as imagens de Adele, Henri, Daniele, Jean-Pierre e Françoise sucederam-se em sua mente como relâmpagos em uma tempestade.

A cadeira de metal desceu uma última vez na direção do monstro.

*

Um sonho ruim. Foi a explicação que Marcos deu para Adele, antes de aplicar na criança um sedativo e desejando que ele mesmo acreditasse naquela história.

Mas o corpo grotesco no chão demonstrava o contrário, ao se dissolver numa poça avermelhada e exalar um odor de podridão. Marcos se lembrou da jarra na cozinha; lá, com as mãos trêmulas, pegou o recipiente e o virou de cabeça para baixo.

O conteúdo escorregou pelo tampo da mesa. Engolindo em seco, o médico encarou o rosto flácido de Nicole Ames; uma película pegajosa cobria o resto da pele vazia, reluzindo nos seios murchos, no púbis de pelos crespos, nos braços e pernas ocos. Exposta ao ar, secou em instantes até se esfarelar em pequenos flocos escuros agora que não tinha mais a quem abrigar.

Adele recebeu alta na manhã seguinte e a vida prosseguiu em Saint-Claire, segura sem a ameaça do lugaru, mas não para Marcos: ele não trabalhava ou dormia direito tentando entender o que havia acontecido com Nicole. Inquieto, refez os passos da enfermeira e acabou na aldeia natal dela no outro lado do país. Após conversar com amigos e parentes da moça, ele acreditou ter descoberto algo.

Três meses atrás, Nicole socorreu a filha de um vizinho, vítima de uma infecção grave, ao levá-la para a clínica onde trabalhava. O pai da garota, porém, queria que ela fosse tratada por curandeiros locais; depois de muita discussão, a opinião da enfermeira prevaleceu.

A criança morreu horas mais tarde. Dali em diante, a história ficava confusa, mas a versão em comum era que o homem nunca perdoara Nicole: corria o boato de que vendera tudo que possuía para um bòkò amaldiçoar a moça.

Agora, um Marcos Leme pálido e com olheiras profundas encolhia-se no último assento de um ônibus abafado. A cada quilômetro percorrido com destino a Saint-Claire, ele tentava negar algo que havia se dado conta naqueles últimos dias.

Mas conforme se aproximava da cidadezinha, a sua convicção de que resolveria os problemas do mundo, com a ajuda da ciência, desmoronava.

Um calafrio estremeceu o médico.

(conto publicado originalmente na revista 1.000 Universos nº 1)

Augúrio

Fausto Aurélio Belisário, comandante da Segunda Legião Augusta, sorriu com a notícia que acabara de ouvir. O homem ao seu lado continuou a falar:

– Os revoltosos vivem em Drwgg, uma cidade a dois dias de marcha, senhor – Cornélio Félix relatou o informe de um dos espiões infiltrados no oeste da Britânia. Momentos antes, Félix havia comunicado ao seu superior hierárquico que os silures, uma tribo nativa da região, preparavam uma nova rebelião contra o Império Romano.

De uma varanda coberta, Belisário observava dezenas de legionários exercitando-se no pátio exterior do forte de Glevum. Uma chuva torrencial caía, algo bem conhecido dos romanos desde que as tropas do então imperador Cláudio invadiram aquela ilha úmida vinte e quatro anos atrás. A frequência era quase diária, principalmente no começo do verão.

Como comandante da legião, Belisário podia suportar intempéries diversas. O que ele não tolerava eram homens incapazes de governar.

Era o caso do atual procônsul da província da Britânia. Sem experiência militar anterior, Marco Trebélio Máximo decidira continuar o trabalho dos seus antecessores, consolidando o poder sobre as tribos já conquistadas e fazendo uma ou outra concessão para agradar aos nativos ao invés de batalhar por novos territórios. Transformara a ilha em um lugar seguro para o império.

E em um completo tédio para os legionários. Sem combates, não havia butim dos inimigos para complementar os salários das legiões. O descontentamento entre soldados e oficiais era cada vez maior; uma insurreição poderia estourar a qualquer momento entre as fileiras romanas.

Felizmente, havia os silures, habitantes das montanhas que tomavam conta da maior parte da paisagem. Aquele povo, de pele mais escura que a dos outros nativos, era famoso por sua beligerância; ao longo de quase três décadas de ocupação, os romanos nunca conseguiram derrotá-los por completo. Na opinião de Belisário, faltava alguém de pulso firme para lidar com os revoltosos. O comandante que eliminasse aquela resistência seria recompensado à altura por Nero, o sucessor de Cláudio.

Um relâmpago cortou o céu acinzentado, dividindo o firmamento em dois por um breve momento. Belisário sorriu.

– Isto é um bom sinal, Félix – Ele disse para o segundo em comando – Marte ouviu nossas preces.

 *

Os brados de guerra dos silures ecoavam pelas montanhas, suas espadas e lanças chocando-se contra os gládios e escudos dos legionários. Da retaguarda e protegido por soldados, Belisário observava o seu objetivo, localizado no topo de um morro rochoso: Drwgg, cercada por fossos, paliçadas e muros de pedra. Há mais de seis horas que os legionários tentavam invadi-la; cerca de quinhentos guerreiros, ostentando pinturas vermelhas de guerra pelos corpos, atacavam com tenacidade os três mil invasores. A chuva gelada, nunca bem-vinda, era agora inimiga dos romanos: tornara escorregadias as rochas do monte e num lodaçal a única estrada de acesso.

Soldados retrocediam das suas posições, passando por cima dos cadáveres dos seus companheiros, mutilados pelas lâminas dos silures. Um canto monocórdico soava a partir da cidade fortificada, propagando-se pelo campo de batalha.

Vendo tudo aquilo, Belisário lembrou-se das palavras de Plínio Ambrósio.

– Não vá – O sacerdote avisara dois dias atrás. O homem de tez pálida encontrava-se no templo dedicado ao culto do imperador, no forte em Glevum. Nas mãos, levava uma tigela de barro.

– É o que os deuses anunciam através deste sacrifício? – Belisário aproximou-se de Ambrósio e olhou para o interior da vasilha na qual repousavam as entranhas de uma ave recém-abatida; o cheiro de sangue tomava conta do templo pequeno. Obedecendo a uma tradição de séculos, Belisário consultara o vidente antes de partir para a batalha.

– Em parte, sim – A mão de Ambrósio revolveu as vísceras sem pressa, até retirar um diminuto coração rubro – Mas também tenho visto maus sinais ao redor do forte.

O sacerdote observou o coração com a atenção que um joalheiro devotaria a uma pedra preciosa.

– Corujas empoleiradas em árvores, por exemplo. Corvos voando em círculos sobre o forte – Ele abriu os dedos e o órgão da ave afundou na tigela com um som flácido – E tem o meu pesadelo.

– Não tem dormido bem? – Belisário reparou nas olheiras da cor de carvão do homem.

– Há dias que tenho o mesmo sonho – O sacerdote disse, seu olhar fixo na vasilha – São imagens de uma cidade de edifícios tão colossais que fariam Roma parecer uma aldeia. O sol brilha forte no alto, iluminando as imensas ruas desertas e fazendo as sombras dos prédios negros alastrarem-se em direção do Leste.

Um leve tremor agora atingia as mãos de Ambrósio.

– De repente, a noite surge. Ainda assim, vejo manchas enormes rastejando por um céu de estrelas que desconheço por completo. O único som ali é um cântico que ecoa pela cidade de pedra.

– Você precisa descansar – Belisário sabia como videntes geralmente tinham uma sensibilidade acima do normal – Esta é uma ótima oportunidade que tenho – ele pigarreou – que o império tem de esmagar estes nativos para sempre. Espero que não tenha comentado seus augúrios com qualquer um dos meus homens.

– Nada falei, mas isto não impede que eles conheçam os boatos que ouvi – Ambrósio deixou a tigela sobre uma mesa – Dizem que os silures de Drwgg foram banidos da tribo principal por abandonarem a adoração de suas divindades depois que um forasteiro surgiu divulgando um novo culto.

O sacerdote virou-se para Belisário.

– O estrangeiro tem cicatrizes por todo o rosto e a pele mais escura que a dos nativos, sendo chamado por eles de “Homem Negro”. Afirma ser o mensageiro de deuses poderosos e prometeu que, em troca de devoção absoluta, Drwgg seria protegida contra qualquer ataque.

O comandante balançou a cabeça.

– Tolice – disse e viu o outro homem fazer uma careta ligeira, evidentemente desgostoso com Belisário – Porém, se você faz tanta consideração, posso até realizar uma evocação.

Ele se referia ao ritual religioso no qual as divindades de uma cidade eram convidadas a abandoná-la, facilitando a conquista pelos romanos e, em troca, ganhavam a garantia de que seriam abrigadas e adoradas em Roma; a lenda contava que Cartago e a cidade etrusca de Veios foram conquistadas desse jeito. Belisário prosseguiu:

– Mas tenho certeza que será desnecessário.

– Senhor! – A voz de Félix trouxe Belisário de volta à batalha. O comandante viu o segundo em comando aproximar-se ofegante – Temos que nos retirar.

Belisário, cenho franzido, o encarou.

– E por que faríamos isto?

– Nossas perdas estão altas e não conseguimos avançar. Não sei como, mas os silures parecem mais resistentes do que o normal – Um estrondo de trovão soou no céu cinza, abafando por um instante o barulho do embate. A cantoria na cidade, no entanto, aumentou de intensidade – Vi um deles ser trespassado por uma lança e mesmo assim continuar a lutar, como se nada tivesse acontecido, sem qualquer emoção no rosto, só tombando quando o degolaram. Há um boato entre nossas fileiras de que essa cantoria é parte de uma cerimônia para sacrifício dos soldados capturados.

– Não importa – Belisário resmungou, pensando se o soldado havia conversado com Ambrósio. – Nós temos que tomar aquele morro e é o que faremos para –

Mas Félix não prestava atenção. Ao invés disto, falou:

– O que aconteceu com o céu?

Belisário seguiu o olhar de Félix. Nuvens cinzas, prenhes de água, desciam para quase tocarem o solo, criando uma névoa densa em volta dos romanos. O dia tornou-se noite em questão de segundos.

Novos trovões soaram, desta vez prolongados e semelhantes aos rugidos de alguma fera.

Foi quando Belisário viu as quatro silhuetas.

Inicialmente, pensou que fossem nuvens, mais escuras e compridas que as outras. Mudou de idéia ao ver uma película viscosa cobrir toda a extensão dos seus corpos negros e gigantescos, agora sólidos e sustentados no ar por duas asas de aparência coriácea. As criaturas revolviam-se com agilidade nos céus.

Os trovões voltaram e o romano percebeu a origem deles: aqueles seres comunicavam-se através dos sons cavernosos, exibindo presas do tamanho das lâminas de gládios.

E então eles mesclaram-se nas nuvens e desapareceram.

E os gritos desesperados dos soldados começaram, atravessando a neblina e chegando aos ouvidos de Belisário.

– Nós precisamos nos retirar – Félix disse, o tremor na voz indicando que ele também vira as criaturas.

O comandante sentiu as entranhas encolherem.

– Nunca – Belisário respondeu. Aquilo significaria o fim da sua carreira; nada de recompensas ou de desfile triunfal pelas avenidas de Roma.

Somente desgraça.

– O senhor precisa fazer alguma coisa, antes que seja tarde demais!

Outros gritos ecoaram de dentro da neblina, apenas para serem silenciados abruptamente. O vento soprou, trazendo o cheiro de sangue.

A breve imagem daquelas criaturas atravessou a mente de Belisário por um momento.

Sim, ele tinha que fazer algo. Algo que fora realizado em Veios e Cartago, centenas de anos atrás.

Respirando fundo, Belisário desembainhou a espada. Empunhando-a na direção de Drwgg, agora escondida pela névoa, ele começou a prece:

– Sob sua liderança, ó poderoso Marte, e inspirado pela tua força, eu avanço para destruir esta cidade e a ti prometo um décimo dos despojos.

As gotas de chuva gelada atingiam o corpo do romano como um chicote.

– Ao mesmo tempo, rogo às divindades que habitam Drwgg a abandoná-la e nos acompanharem até Roma, onde um templo será erguido para que sejam homenageadas, persistindo assim sua veneração.

E dizendo isso, Belisário abaixou a espada.

O som da batalha se dissipou, junto com a neblina. A chuva continuava a cair, mas não intensa como antes.

Belisário viu centenas de silures parados e de olhos arregalados, olhando de um lado para o outro, como se procurassem algo. Seus rostos pintados de vermelho expressavam mais do que surpresa.

Demonstravam medo, abandono e vulnerabilidade.

O comandante da Segunda Legião Augusta sorriu ao ordenar um novo ataque.

 * 

Belisário sorvia o vinho da taça. Sozinho em seu alojamento no forte de Glevum, ele escutava a comemoração dos legionários no pátio, agora satisfeitos depois da tomada de Drwgg três dias atrás. Era verdade que as baixas entre os romanos foram maiores do que esperado, mas Belisário sabia que a derrota daquele clã de silures soaria bem em Roma, com recompensas em médio prazo. Talvez até mesmo uma nomeação como procônsul.

O comandante pousou a taça na mesa e percebeu que não estava sozinho. Do outro lado do cômodo, um desconhecido vestido de negro o olhava.

Belisário tentou se mover, mas não conseguiu. As palavras estancaram na garganta.

A única coisa que ele podia fazer era observar o homem – uma teia de cicatrizes cobrindo a sua pele escura desde o crânio pelado até a mandíbula saliente – aproximar-se sem pressa. O estranho encostou os lábios no ouvido de Belisário.

– Obrigado – disse, a voz grave como um trovão – Eu já estava cansado desse clima úmido.

Um berro soou lá fora. Belisário sentiu o corpo obedecer-lhe mais uma vez e, com um salto, agarrou sua espada.

Mas o quarto estava vazio.

Um tumulto começava no pátio. Ele correu e viu Ambrósio debatendo-se no solo, saliva escorrendo pelo queixo e gritando palavras desconexas:

– Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath, Cthulhu! – Ao ver o comandante, ele o agarrou pelos ombros e concluiu numa voz trêmula – Você tem ideia do que fez a Roma?

E dizendo isso, Ambrósio soltou um uivo doloroso.

Belisário engoliu em seco: o sacerdote enlouquecera.

Aquilo não era um bom sinal.

(conto publicado originalmente na revista Scarium nº 21- Especial Lovecraft)