Férias

Dezembro é o mês da retrospectiva do ano, de lembrar os fatos importantes, de comentar os livros mais interessantes no blog. É o que deveria ter feito há três semanas.

Meu cérebro, porém, tinha outros planos para a manhã do dia 10.

Acordei naquela quarta com uma excruciante dor de cabeça, do tipo que nunca senti antes: era uma pressão forte e contínua por todo o crânio e que parecia esmagar meu cérebro. Raramente tenho cefaleia e quando vomitei o pouco que tentei comer no café da manhã, vi que teria que ir ao pronto-socorro. Lá, tomei soro e remédios contra dor e náuseas. Após me examinar, o médico plantonista considerou que eu poderia estar com enxaqueca e, caso a dor persistisse, procurasse por um especialista. Se fosse verdade, aquele seria meu primeiro episódio da doença na vida; por um instante, pensei se não se tratava de uma das viroses fortes que pego às vezes – até lembrei que não havia gripado ou me resfriado em 2014.

A dor continuou. Não consegui marcar com o neurologista, mas consegui uma consulta com o clínico geral no dia seguinte. Ele me examinou e passou vários exames, incluindo uma tomografia. Pediu que eu ficasse alerta se vomitasse em jatos ou minha nuca enrijecesse, sinais de uma meningite.

Enxaqueca e agora meningite. De repente, minha hipótese de virose forte parecia atraente.

Realizei os exames. Os dias passavam enquanto eu esperava os resultados. A cabeça continuava a doer e o Tylex receitado pelo clínico pouco acalmava a dor. Minhas tentativas de dormir acabavam em pesadelos sempre envolvendo sofrimento. Não tinha vontade fazer qualquer coisa – só queria que a dor sumisse.

Os resultados dos exames de sangue começaram a aparecer: nada de anormal.

E aí saiu o da tomografia, mostrando um hemorragia meníngea.

Voltei correndo ao PS. Do leito na sala de observação, escutei o neurocirurgião e o neurologista discutindo meu caso. Conclusão que chegaram: eu havia sofrido uma trombose cerebral.

Como assim?! Eu não fumo e nem bebo. Pratico exercícios físicos regularmente. Consumo alimentos saudáveis (meu exame de colesterol feito no mês passado era prova disso). Não tenho pressão alta. Como é que pode?

O neurologista não sabia. Por isto, eu teria que ficar internado na UTI e me preparar para realizar mais exames.

E então vesti uma camisola hospitalar e me ligaram a tubos e fios e um monitor que tirava minha pressão arterial de hora em hora. Perdi as contas de quantas vezes coletaram meu sangue. Ansiedade e medo não me deixaram dormir naquela primeira noite. Fiz a angiografia cerebral no dia seguinte, um exame em que se usa contraste a base de iodo (toda vez que este era acionado, parecia que o sol nascia dentro da minha cabeça). O resultado confirmou a trombose de seio sagital superior e seio transverso esquerdo.

Comecei o tratamento no mesmo dia. Da UTI, passei para um quarto e acabei recebendo alta antes do previsto, conseguindo passar o Natal com minha família.

Estou bem e sem sequelas. Vou precisar tomar  a medicação por um período mínimo de seis meses; enquanto isto, espero o resultado dos outros exames feitos para detectar a causa da trombose.

O tempo passa bem devagar numa UTI. Não se tem muito o que fazer, exceto ficar de olho no relógio esperando pelo próximo horário de visitas, e a programação da TV aberta (ainda mais a do final de ano, com direito ao “Um Conto de Natal” em versão CGI às 2 da manhã) não ajuda em nada. Com fios e tubos ligados ao corpo, é quase impossível achar uma posição confortável para se dormir – e com o movimento menor de pessoas pela noite, aumentava a cacofonia dos bipes e avisos sonoros soando do meu monitor e de outros quartos, como se eu presenciasse uma discussão de vários robôs do tipo R2-D2, todos bêbados e querendo fazer seu ponto de vista prevalecer.

É tempo bastante para fazer uma retrospectiva não só do ano, mas da vida inteira. Pensar no que se fez e no que se deixou de fazer. No que aconteceu e no que poderia ter acontecido. Chegar a várias conclusões, algumas óbvias mas que a gente nunca lembra (a vida é muito, muito curta) e outras nem tanto (não fico bem de camisola hospitalar). Depois deste grande susto, minha vontade agora é de fazer várias coisas ao mesmo tempo – ler, escrever, falar com os amigos, voltar a me exercitar, jogar, organizar meus livros -, mas sinto que meu corpo e mente ainda precisam de descanso.

O que significa que vou ficar mais um tempinho afastado. Então aproveito para agradecer ao Dr. Paulo, Dr. Walter e Dra. Manoela, e aos enfermeiros e técnicos de enfermagem Daniela, Jorge, Gi, Fernanda, Josi, Angélica, Rafael, Zildete, Paulo, Érica, Assis e Daniele. Assim como aos parentes e amigos que torceram e rezaram pela minha recuperação; foi muito importante mesmo contar com o apoio de vocês nos momentos de apreensão.

Fico por aqui desejando um Feliz Ano Novo, com muita paz, prosperidade e – principalmente – saúde!

🙂

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Uma opinião sobre “Férias

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