Sonho ruim

O pequeno caixão branco reluzia sob o sol inclemente do Haiti, enquanto o choro de uma mãe quebrava o silêncio do cortejo fúnebre. Da porta da sua clínica, Marcos Leme observava a procissão caminhar até o cemitério, repouso final da quarta criança a morrer naquele mês em Saint-Claire.

– O que tem de errado nesse lugar? – murmurou, passando a mão pelos cabelos castanhos que começavam a encanecer nas têmporas. Com trinta e dois anos de idade, o médico brasileiro parecia no momento ter uma década a mais.

Em tese, a resposta para a pergunta era fácil: habitada por cerca de duas mil almas, Saint-Claire tinha os piores índices sociais do Haiti, o que não era novidade na nação mais pobre das Américas. Saneamento básico, saúde pública e ruas asfaltadas eram palavras desconhecidas naquela área rural ao oeste do país. A situação só piorou após o devastador terremoto do começo de 2010: com a capital Porto Príncipe devastada, milhares de sobreviventes ficaram desabrigados, obrigados a sobreviver em acampamentos ou a se refugiar no interior menos atingido pela catástrofe.

– Você fez tudo que era possível – disse Nicole Ames, a jovem haitiana que era a única enfermeira no consultório. Tal como Marcos, ela chegara no mês anterior, vindo da capital.

O médico meneou a cabeça. Sabia do desafio que tinha desde o momento em que se inscreveu cinco anos antes no programa de ajuda humanitário de uma ONG internacional. Trabalhando no Brasil, África e Ásia, presenciou todo tipo de morte infantil.

Mas era a primeira vez que se deparava com óbitos inexplicáveis.

Fora o caso de Henri, que agora seguia para seu descanso final. Seus pais procuraram Marcos no dia anterior, trazendo o bebê de meio ano de vida com um quadro de fraqueza geral.

O médico detectou mais do que isso. Um odor forte acompanhava o paciente, algo que ele havia notado nas outras crianças. Sua origem, ficou sabendo, eram loções de ervas nativas usadas por muitos curandeiros adeptos do vodu. Não era novidade para Marcos que aquelas pessoas do interior, supersticiosas e sem instrução formal, procuravam os sacerdotes em caso de doença. Ali, onde o vodu fazia parte do dia a dia, a medicina era o último recurso.

Mas a ciência também não conseguira ajudar Henri. Mesmo apresentando uma melhora horas após dar entrada e ficando em observação pela noite, a criança faleceu pela manhã sem qualquer explicação.

Assim como acontecera antes com os pequenos Jean-Pierre, Françoise e Daniele.

Encostado na soleira, Marcos sentiu um calafrio percorrer seu corpo fatigado. Pensou que adoeceria, depois do trabalho incessante em tentar salvar Henri.

Foi quando viu a mulher do outro lado da rua de terra. Era uma anciã franzina de pele escura, o rosto sulcado por uma teia de rugas profundas, usando um vestido de chita verde e na cabeça um lenço vermelho. Seus olhos negros encaravam com firmeza o consultório.

Outro calafrio atingiu o médico.

Não era a primeira vez que via a mulher. Na ocasião da morte de Daniele, dez dias atrás, Madame Solange posicionara-se na calçada, observando em silêncio a clínica. Nicole explicara que a anciã era uma mambo, o nome dado às sacerdotisas do vodu que se comunicavam com seus espíritos protetores, conhecidos como loas; Madame Solange tinha a fama de ser uma das mambos mais conceituadas em Saint-Claire.

E agora lá estava a mulher examinando o médico, sozinha depois que o cortejo dobrou a esquina. A temperatura estava bem próxima dos quarenta graus, mas Marcos sentia frio. Ele não sabia o que Madame Solange queria, porém uma coisa era certa:

A presença dela o incomodava.

Ele precisava descobrir o porquê.

Marcos atravessou a rua de terra em direção da mambo. A mulher continuou a encará-lo, mas assim que ele se aproximou, passou a tagarelar em creole.

– Sinto muito, senhora, não entendo uma palavra – Marcos tentou interromper o monólogo, mas em vão: Madame Solange matraqueava sem parar, os braços finos movendo-se como ramos de árvore numa ventania.

E sem aviso, ela virou as costas e foi embora, deixando Marcos sozinho no meio da calçada.

*

– O que Madame Solange tanto disse, docteur? – Nicole perguntou, baixando a xícara de café recém-coado por Charlotte Lambert, a jovem empregada que no momento lavava a louça ali na cozinha. Assim como Nicole, a moça também era funcionária da ONG, com a diferença que era nativa da cidade. Com vinte anos, ela era responsável não só pela limpeza, mas também pelos serviços gerais, o que incluía manter o gerador a diesel da clínica funcionando, algo vital em um local onde o fornecimento de eletricidade era instável.

– Eu realmente não sei – O médico encolheu os ombros – Tinha uma palavra que ela não parava de repetir. Parecia ser “laguru”, “loguru” ou talvez “luguru” –

O ruído de algo se espatifando interrompeu o rapaz.

– Desculpem-me – Charlotte balbuciou, recolhendo os cacos da xícara que deixara cair.

– Tudo bem. Estamos todos exaustos depois desses últimos dias – Marcos bocejou – É melhor eu ir para casa e descansar.

O médico morava numa construção simples de alvenaria, um luxo se comparado com os casebres de madeira tão comuns em Saint-Claire. Após um banho, ele se deitou e esperou por um sono que nunca chegava. Seria muito fácil colocar a culpa no calor sufocante do Caribe ou no ventilador barulhento que não refrescava o lugar.

A razão era outra, Marcos bem sabia. Ele nunca havia enfrentado uma dificuldade daquele tamanho na curta carreira que tinha, vendo sua confiança ser minada aos poucos a cada morte infantil. Para muitos dos seus colegas de universidade, Marcos Leme – nascido numa família rica e graduado no melhor curso do Brasil – não passava de um idealista por perder seu tempo em países miseráveis, quando poderia ganhar muito dinheiro como dermatologista ou cirurgião plástico numa clínica particular do Primeiro Mundo; era o mesmo pensamento dos pais e da ex-noiva que deixara no Brasil.

Mas ele sempre quisera ser um médico de verdade, um que fizesse diferença no mundo ao trazer alívio aos necessitados com a ajuda da ciência, resolvendo assim os problemas do mundo. Fosse uma visão romântica da profissão ou ingenuidade, aquela era uma certeza na vida que Marcos tinha como norte.

Uma convicção que agora estava sendo posta à prova.

Marcos fechou as pálpebras. A imagem dos olhos negros de Madame Solange, tão escuros que era impossível distinguir a pupila da íris, surgiu na sua mente.

O que a mulher tanto dizia?

Marcos só descansaria quando falasse com a mambo.

*

A casa de Solange era localizada ao lado de um riacho nos arredores de Saint-Claire. Nos fundos da propriedade ficava o oufò, o templo onde ela realizava as cerimônias. A noite começava a surgir quando Marcos atravessou o portão de madeira que dava acesso ao quintal. Após caminhar alguns metros, encontrou o oufò, um barracão de madeira e telhado de zinco, decorado por bandeirolas vermelhas e verdes. Imagens de diversos santos católicos, sincretizados pelo vodu, estavam penduradas nas paredes pintadas de azul. No centro do chão de terra batida erguia-se uma coluna de madeira com um arco-íris e uma serpente desenhadas nela: era o poteau-mitan, uma espécie de ponte espiritual pela qual os loas chegavam para possuir e se comunicar com seus adoradores.

A decoração colorida do oufò desaparecia conforme as sombras da noite avançavam. O lugar parecia deserto. Hoje, pelo que Marcos soubera, não era dia de culto. Da entrada do barracão, ele chamou por Madame Solange.

Nenhuma resposta.

Marcos avançou mais alguns passos. Do fundo do templo, veio um ruído, junto com um cheiro pungente.

– Tem alguém aí? – Marcos fez a pergunta em voz alta.

A resposta foi outro som que agora pareceu aos ouvidos do rapaz um gemido de dor. Marcos apertou um interruptor de luz próximo da entrada do oufò e uma única lâmpada incandescente se acendeu para mostrar Madame Solange em meio a uma poça de sangue.

O rapaz correu em direção da mambo. Palavras em creole eram debilmente sussurradas por ela.

– Não se mexa, por favor – disse Marcos, vendo a mulher entrar em estado de choque com o torso dilacerado. Solange continuou a balbuciar:

– L-lu… luga… lugaru…

Era a mesma palavra repetida enfaticamente pela manhã. Revirando os olhos, Madame Solange soltou seu último suspiro.

Lugaru – disse uma voz atrás do médico. Marcos voltou-se e viu Charlotte – Era o que ela tentava avisar ao senhor.

– O que você está fazendo aqui?

– Eu ajudo a mambo durante os cultos – A moça aproximou-se, levando na mão uma sacola de plástico azul. – Desde o dia que Daniele morreu, Madame Solange suspeitou da presença de um lugaru na cidade.

O médico encolheu os ombros.

– Desculpe, mas não sei do que você está falando.

Charlotte olhou para a mulher estendida no solo sagrado.

– Lugaru é uma pessoa que fez um pacto com um loa maligno em troca de favores mágicos. Noutras vezes, é alvo da maldição de um bòkò, um feiticeiro que trabalha com magia negra. De qualquer modo, a criatura precisa se alimentar de crianças para sobreviver.

Marcos pigarreou.

– Charlotte, não quero ser desrespeitoso com suas crenças, mas –

– De dia, o monstro anda, bebe e come feito gente, como eu e você. Mas pela a noite, esfrega uma poção de ervas pelo corpo até a pele sair. Depois de guardá-la num lugar fresco, está pronto para caçar, se alimentando aos poucos do sangue dos pequeninos. Quando eles acordam pela manhã, pensam que foi tudo um sonho ruim – Os olhos dela se encheram de lágrimas – Até o dia em que não acordam mais.

A moça ajoelhou-se perto da sacerdotisa falecida:

– Madame Solange pediu que eu ajudasse a fazer um amuleto contra o monstro – Da sacola que carregava, retirou uma pequena bola de pano multicolorida, enfeitada com lantejoulas. Marcos vira objetos como aquele pela cidade: era um wanga, talismã que protegia contra vários tipos de mal e cujo conteúdo era feito de ervas, terra e, diziam alguns, restos de cadáveres – Mas lugaru foi mais rápido.

Ela voltou-se para o médico.

– Sei que é difícil você acreditar nisso, doutor, mas peço que retorne para a clínica. Outra criança foi internada.

Charlotte levantou-se e colocou a wanga nas mãos de Marcos:

– Não deixe que ela morra.

*

A pequena Adele dormia tranquila em um leito da clínica. Numa cadeira ao lado, Marcos a vigiava.

Duas horas antes, ele chegara correndo para atender a garota com os mesmos sintomas dos pacientes anteriores. Após aplicar o tratamento inicial, o médico recomendou o pernoite dela na clínica para garantir que os remédios fossem devidamente ministrados.

Marcos bem sabia que esta não era a única razão para manter a criança por perto. As palavras de Charlotte ainda ecoavam em sua mente. No bolso da calça, a wanga pesava como uma pedra.

Depois de dispensar Nicole, ele sentou-se numa desconfortável cadeira de metal, ajustou a luminária para não incomodar a paciente e começou a ler uma revista para manter-se acordado, as pálpebras cada vez mais pesadas. Lá fora, cigarras cantavam, uma cacofonia que se misturava com o barulho do motor da geladeira na cozinha e com a respiração pesada da pequena criança.

Um ruído despertou o médico.

Levantou-se, o coração acelerado. Na cama de metal branco, Adele ressonava, o soro preso ao braço fino e delicado.

Consultou o relógio: já era de madrugada. Marcos virou a cabeça de um lado para o outro, procurando por algo diferente.

Um cheiro estranho invadiu suas narinas.

Ele o reconheceu de imediato: era igual ao das loções empregadas pelos sacerdotes voduístas. Franzindo o nariz, percebeu que o fedor vinha da cozinha. Lá, o odor não só era mais forte como também sufocante, uma mistura de suor azedo e esgoto a céu aberto. Avançou pelo cômodo e verificou que sua origem era a velha geladeira, usada para proteger vacinas do clima tórrido.

Marcos abriu a porta do eletrodoméstico. Uma nuvem branca e refrescante o recepcionou, junto com o odor estranho. Estreitando os olhos, viu uma jarra de vidro fosco e tampada por um pano; com cuidado, afastou os medicamentos e trouxe o recipiente para perto.

A jarra não possuía qualquer identificação. Marcos a colocou na mesa, notando como era pesada. Prendendo a respiração para evitar o fedor, ele a destampou.

Adele gritou no quarto.

Marcos largou a jarra e disparou para o cômodo.

Algo se virou na direção do rapaz. A iluminação precária do quarto mostrava a silhueta de uma mulher – quadris largos, cintura fina, mamas desenvolvidas. Não havia sinal de cabelos, já que também não possuía pele: músculos vermelhos e viscosos cobriam a sua estrutura óssea, lembrando ao médico os modelos plásticos de anatomia que estudara na faculdade.

A semelhança com uma figura humana acabava aí. As mãos eram garras curvas e afiadas; da boca, atulhada de pequenos dentes triangulares, projetava-se uma língua comprida, pela qual um filete de saliva escorria e caía na assustada Adele.

Aquilo era uma lugaru.

E pelo visto, não gostava de ser interrompida nas suas refeições: com um rosnado, a criatura saltou sobre Marcos.

O rapaz só teve tempo de se jogar no chão para evitar o ataque. Quando se levantou, viu o monstro de pernas arqueadas, preparando-se para um novo bote.

E então a lugaru estancou, pupilas brilhantes fixas no chão. Marcos seguiu o olhar e viu a wanga, caída do seu bolso no ataque.

A criatura tremia como se tivesse frio.

Ou medo do amuleto.

A lugaru rosnava, mostrando os dentes, procurando passar pela wanga, mas sempre retrocedendo na tentativa.

Na cama, Adele chorava.

Marcos não teria outra chance para salvar a criança. A única arma por perto era a cadeira de metal.

Ele a agarrou, ergueu e bateu repetidamente na lugaru, mirando tronco e cabeça. A criatura recuou, fosse pelos golpes ou pela wanga, até ficar encurralada no canto do quarto.

– Não me mate – As palavras saíram debilmente da boca sem lábios da lugaru. – Eu não tenho culpa.

Marcos, segurando a cadeira deformada pelos impactos, mirou aqueles olhos suplicantes por uma fração de segundo.

E então as imagens de Adele, Henri, Daniele, Jean-Pierre e Françoise sucederam-se em sua mente como relâmpagos em uma tempestade.

A cadeira de metal desceu uma última vez na direção do monstro.

*

Um sonho ruim. Foi a explicação que Marcos deu para Adele, antes de aplicar na criança um sedativo e desejando que ele mesmo acreditasse naquela história.

Mas o corpo grotesco no chão demonstrava o contrário, ao se dissolver numa poça avermelhada e exalar um odor de podridão. Marcos se lembrou da jarra na cozinha; lá, com as mãos trêmulas, pegou o recipiente e o virou de cabeça para baixo.

O conteúdo escorregou pelo tampo da mesa. Engolindo em seco, o médico encarou o rosto flácido de Nicole Ames; uma película pegajosa cobria o resto da pele vazia, reluzindo nos seios murchos, no púbis de pelos crespos, nos braços e pernas ocos. Exposta ao ar, secou em instantes até se esfarelar em pequenos flocos escuros agora que não tinha mais a quem abrigar.

Adele recebeu alta na manhã seguinte e a vida prosseguiu em Saint-Claire, segura sem a ameaça do lugaru, mas não para Marcos: ele não trabalhava ou dormia direito tentando entender o que havia acontecido com Nicole. Inquieto, refez os passos da enfermeira e acabou na aldeia natal dela no outro lado do país. Após conversar com amigos e parentes da moça, ele acreditou ter descoberto algo.

Três meses atrás, Nicole socorreu a filha de um vizinho, vítima de uma infecção grave, ao levá-la para a clínica onde trabalhava. O pai da garota, porém, queria que ela fosse tratada por curandeiros locais; depois de muita discussão, a opinião da enfermeira prevaleceu.

A criança morreu horas mais tarde. Dali em diante, a história ficava confusa, mas a versão em comum era que o homem nunca perdoara Nicole: corria o boato de que vendera tudo que possuía para um bòkò amaldiçoar a moça.

Agora, um Marcos Leme pálido e com olheiras profundas encolhia-se no último assento de um ônibus abafado. A cada quilômetro percorrido com destino a Saint-Claire, ele tentava negar algo que havia se dado conta naqueles últimos dias.

Mas conforme se aproximava da cidadezinha, a sua convicção de que resolveria os problemas do mundo, com a ajuda da ciência, desmoronava.

Um calafrio estremeceu o médico.

(conto publicado originalmente na revista 1.000 Universos nº 1)

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