Inveja

Cecyla mirou-se no espelho pela terceira vez em menos de um minuto. O reflexo continuava a mostrar a mesma jovem de feições delicadas e corpo atraente, pele bronzeada contrastando com cabelos loiros.

Nada de anormal.

Por enquanto.

Serviu-se de uma taça de vinho na cozinha da casa, observando o sol descer no horizonte marciano, a luz filtrada pelo domo que protegia a capital do planeta vermelho das ameaças exteriores. Seu olhar se fixou numa pequena mancha azulada no céu: aquela era a Terra, de onde seus pais haviam fugido cinco décadas antes.

E então Cecyla imaginou por um instante como seria viver naquele mundo. O pensamento a desesperou, mesmo que só conhecesse os terráqueos através de vídeos na iNet; considerava os pais e os outros primeiros habitantes de Marte como pré-marcianos ou, ainda, transhumanos pioneiros.

Com os lábios trêmulos, tomou um gole demorado da taça. Lá fora, as sombras desciam sobre canais, vales e cânions.

Um som agudo atraiu sua atenção para o monitor na sala conectado à iNet. A tela mostrava mais um dos avisos do governo marciano, transmitidos desde o meio-dia quando a população fora ordenada, sem maiores explicações, a deixar os afazeres e voltar para suas casas. Agora, o aviso pedia que todos os cidadãos continuassem em seus lares até que a situação se normalizasse – desobediência seria punida com prisão imediata.

E só. Nenhuma informação sobre o que acontecera ou o porquê da ordem repentina. Desde que voltara correndo da universidade, ela tentara obter maiores notícias com todos que conhecia, conseguindo apenas boatos diversos.

– Os terráqueos não se esqueceram da surra que levaram – Nadia dissera, os olhos grandes e de um dourado tão intenso quanto o do sol. A melhor amiga de Cecyla se referia ao conflito militar iniciado quando Marte declarou que, cansada dos pesados tributos, não seria mais uma colônia da Terra. Após infrutíferas conversas diplomáticas, os terráqueos tentaram invadir o planeta vermelho. Os marcianos os derrotaram com facilidade, encerrando a guerra três meses atrás.

Era o que todos em Marte pensavam.

Já a Terra tinha uma opinião diferente.

– Você sabe como eles são mesquinhos, não é? – Nadia continuou. As aulas de história haviam ensinado à Cecyla que boa parte dos terráqueos achava absurda a ideia de transhumanismo: a procura por melhoras de características físicas e mentais, usando engenharia genética e nanotecnologia, seria uma afronta à natureza. Por isto seus pais exilaram-se no planeta vermelho.

Nessas ocasiões, ela sempre concluía, assim como vários dos seus compatriotas, que tudo era uma questão de inveja por parte dos “vizinhos”. Os transhumanos eram parte de uma elite de cientistas visionários, donos de corpos perfeitos e mentes centenas de vezes mais aguçadas que as dos humanos, seres confinados naquelas estruturas frágeis, cheias de imperfeições biológicas e sujeitas a todo tipo de enfermidade.

– A Terra quer vingança – E Nadia contou o rumor que ouvira: de alguma forma, os terráqueos haviam introduzido em Marte uma doença infecciosa, engenhada para minar o sistema imunológico transhumano, alastrando-se velozmente e com os primeiros sintomas manifestando-se em horas. Talvez até existisse uma chance de cura se a doença fosse diagnosticada no início.

Várias imagens surgiram no monitor de Cecyla, transmitidas pela amiga: mostravam, ao longo da história terráquea, humanos deformados pela peste bubônica, varíola e sífilis, definhando em hospitais imundos, largados em valas comuns, empilhados enquanto chamas alaranjadas os consumiam para evitar maior contaminação.

A tal infecção, diziam os boatos, lembrava às vítimas marcianas que elas não eram tão perfeitas como pensavam.

– Os terráqueos querem nos destranshumanizar, Cecy.

Foi naquele instante que a tela enegreceu; segundos depois, um informe do governo aparecera noticiando que, ante boatos infundados, a iNet estava sob intervenção para evitar pânico desnecessário.

E agora Cecyla estava completamente isolada.

Ela abriu uma segunda garrafa de vinho. A noite era total fora do domo; na penumbra da casa, não conseguia sequer ver seu reflexo no espelho do corredor. Outro aviso surgiu, informando que os cidadãos deveriam esperar a chegada de uma equipe de profissionais médicos. Cecyla engoliu em seco: pelo visto, o boato estava certo.

Um gemido soou na porta da frente.

O coração dela bateu mais rápido; seus ouvidos apurados captaram o som se repetir com força.

Alguém lá fora sentia muita dor. Cautelosamente, ela se aproximou da janela. Uma pessoa se encontrava em posição fetal sobre o capacho da entrada, olhos fechados e respiração ofegante. Sob as luzes dos postes públicos, feridas negras e úmidas brilhavam, desfigurando toda a pele.

Perto dali, um veículo freou bruscamente, as portas abrindo-se com rapidez.

A vítima virou a cabeça na direção da janela e levantou as pálpebras. Úlceras pequenas se espalhavam ao redor dos grandes olhos de tom dourado – um dourado tão intenso quanto o do sol.

Cecyla sufocou um grito, levando as mãos à boca, e acabou por apalpar um caroço pequeno e doloroso logo acima dos lábios.

Passos apressados ecoaram na rua. Um grupo de homens e mulheres em trajes brancos de proteção – a familiar cruz vermelha e simétrica estampada nos torsos – aproximava-se.

Médicos, finalmente. Ainda existia uma chance de salvação.

E então ela reparou nos tubos metálicos compridos que empunhavam. Na extremidade de cada um deles, brilhava uma chama alaranjada.

Cecyla se afastou da janela. A campainha tocou segundos depois.

(conto publicado originalmente no site O Nerd Escritor)

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