Augúrio

Fausto Aurélio Belisário, comandante da Segunda Legião Augusta, sorriu com a notícia que acabara de ouvir. O homem ao seu lado continuou a falar:

– Os revoltosos vivem em Drwgg, uma cidade a dois dias de marcha, senhor – Cornélio Félix relatou o informe de um dos espiões infiltrados no oeste da Britânia. Momentos antes, Félix havia comunicado ao seu superior hierárquico que os silures, uma tribo nativa da região, preparavam uma nova rebelião contra o Império Romano.

De uma varanda coberta, Belisário observava dezenas de legionários exercitando-se no pátio exterior do forte de Glevum. Uma chuva torrencial caía, algo bem conhecido dos romanos desde que as tropas do então imperador Cláudio invadiram aquela ilha úmida vinte e quatro anos atrás. A frequência era quase diária, principalmente no começo do verão.

Como comandante da legião, Belisário podia suportar intempéries diversas. O que ele não tolerava eram homens incapazes de governar.

Era o caso do atual procônsul da província da Britânia. Sem experiência militar anterior, Marco Trebélio Máximo decidira continuar o trabalho dos seus antecessores, consolidando o poder sobre as tribos já conquistadas e fazendo uma ou outra concessão para agradar aos nativos ao invés de batalhar por novos territórios. Transformara a ilha em um lugar seguro para o império.

E em um completo tédio para os legionários. Sem combates, não havia butim dos inimigos para complementar os salários das legiões. O descontentamento entre soldados e oficiais era cada vez maior; uma insurreição poderia estourar a qualquer momento entre as fileiras romanas.

Felizmente, havia os silures, habitantes das montanhas que tomavam conta da maior parte da paisagem. Aquele povo, de pele mais escura que a dos outros nativos, era famoso por sua beligerância; ao longo de quase três décadas de ocupação, os romanos nunca conseguiram derrotá-los por completo. Na opinião de Belisário, faltava alguém de pulso firme para lidar com os revoltosos. O comandante que eliminasse aquela resistência seria recompensado à altura por Nero, o sucessor de Cláudio.

Um relâmpago cortou o céu acinzentado, dividindo o firmamento em dois por um breve momento. Belisário sorriu.

– Isto é um bom sinal, Félix – Ele disse para o segundo em comando – Marte ouviu nossas preces.

 *

Os brados de guerra dos silures ecoavam pelas montanhas, suas espadas e lanças chocando-se contra os gládios e escudos dos legionários. Da retaguarda e protegido por soldados, Belisário observava o seu objetivo, localizado no topo de um morro rochoso: Drwgg, cercada por fossos, paliçadas e muros de pedra. Há mais de seis horas que os legionários tentavam invadi-la; cerca de quinhentos guerreiros, ostentando pinturas vermelhas de guerra pelos corpos, atacavam com tenacidade os três mil invasores. A chuva gelada, nunca bem-vinda, era agora inimiga dos romanos: tornara escorregadias as rochas do monte e num lodaçal a única estrada de acesso.

Soldados retrocediam das suas posições, passando por cima dos cadáveres dos seus companheiros, mutilados pelas lâminas dos silures. Um canto monocórdico soava a partir da cidade fortificada, propagando-se pelo campo de batalha.

Vendo tudo aquilo, Belisário lembrou-se das palavras de Plínio Ambrósio.

– Não vá – O sacerdote avisara dois dias atrás. O homem de tez pálida encontrava-se no templo dedicado ao culto do imperador, no forte em Glevum. Nas mãos, levava uma tigela de barro.

– É o que os deuses anunciam através deste sacrifício? – Belisário aproximou-se de Ambrósio e olhou para o interior da vasilha na qual repousavam as entranhas de uma ave recém-abatida; o cheiro de sangue tomava conta do templo pequeno. Obedecendo a uma tradição de séculos, Belisário consultara o vidente antes de partir para a batalha.

– Em parte, sim – A mão de Ambrósio revolveu as vísceras sem pressa, até retirar um diminuto coração rubro – Mas também tenho visto maus sinais ao redor do forte.

O sacerdote observou o coração com a atenção que um joalheiro devotaria a uma pedra preciosa.

– Corujas empoleiradas em árvores, por exemplo. Corvos voando em círculos sobre o forte – Ele abriu os dedos e o órgão da ave afundou na tigela com um som flácido – E tem o meu pesadelo.

– Não tem dormido bem? – Belisário reparou nas olheiras da cor de carvão do homem.

– Há dias que tenho o mesmo sonho – O sacerdote disse, seu olhar fixo na vasilha – São imagens de uma cidade de edifícios tão colossais que fariam Roma parecer uma aldeia. O sol brilha forte no alto, iluminando as imensas ruas desertas e fazendo as sombras dos prédios negros alastrarem-se em direção do Leste.

Um leve tremor agora atingia as mãos de Ambrósio.

– De repente, a noite surge. Ainda assim, vejo manchas enormes rastejando por um céu de estrelas que desconheço por completo. O único som ali é um cântico que ecoa pela cidade de pedra.

– Você precisa descansar – Belisário sabia como videntes geralmente tinham uma sensibilidade acima do normal – Esta é uma ótima oportunidade que tenho – ele pigarreou – que o império tem de esmagar estes nativos para sempre. Espero que não tenha comentado seus augúrios com qualquer um dos meus homens.

– Nada falei, mas isto não impede que eles conheçam os boatos que ouvi – Ambrósio deixou a tigela sobre uma mesa – Dizem que os silures de Drwgg foram banidos da tribo principal por abandonarem a adoração de suas divindades depois que um forasteiro surgiu divulgando um novo culto.

O sacerdote virou-se para Belisário.

– O estrangeiro tem cicatrizes por todo o rosto e a pele mais escura que a dos nativos, sendo chamado por eles de “Homem Negro”. Afirma ser o mensageiro de deuses poderosos e prometeu que, em troca de devoção absoluta, Drwgg seria protegida contra qualquer ataque.

O comandante balançou a cabeça.

– Tolice – disse e viu o outro homem fazer uma careta ligeira, evidentemente desgostoso com Belisário – Porém, se você faz tanta consideração, posso até realizar uma evocação.

Ele se referia ao ritual religioso no qual as divindades de uma cidade eram convidadas a abandoná-la, facilitando a conquista pelos romanos e, em troca, ganhavam a garantia de que seriam abrigadas e adoradas em Roma; a lenda contava que Cartago e a cidade etrusca de Veios foram conquistadas desse jeito. Belisário prosseguiu:

– Mas tenho certeza que será desnecessário.

– Senhor! – A voz de Félix trouxe Belisário de volta à batalha. O comandante viu o segundo em comando aproximar-se ofegante – Temos que nos retirar.

Belisário, cenho franzido, o encarou.

– E por que faríamos isto?

– Nossas perdas estão altas e não conseguimos avançar. Não sei como, mas os silures parecem mais resistentes do que o normal – Um estrondo de trovão soou no céu cinza, abafando por um instante o barulho do embate. A cantoria na cidade, no entanto, aumentou de intensidade – Vi um deles ser trespassado por uma lança e mesmo assim continuar a lutar, como se nada tivesse acontecido, sem qualquer emoção no rosto, só tombando quando o degolaram. Há um boato entre nossas fileiras de que essa cantoria é parte de uma cerimônia para sacrifício dos soldados capturados.

– Não importa – Belisário resmungou, pensando se o soldado havia conversado com Ambrósio. – Nós temos que tomar aquele morro e é o que faremos para –

Mas Félix não prestava atenção. Ao invés disto, falou:

– O que aconteceu com o céu?

Belisário seguiu o olhar de Félix. Nuvens cinzas, prenhes de água, desciam para quase tocarem o solo, criando uma névoa densa em volta dos romanos. O dia tornou-se noite em questão de segundos.

Novos trovões soaram, desta vez prolongados e semelhantes aos rugidos de alguma fera.

Foi quando Belisário viu as quatro silhuetas.

Inicialmente, pensou que fossem nuvens, mais escuras e compridas que as outras. Mudou de idéia ao ver uma película viscosa cobrir toda a extensão dos seus corpos negros e gigantescos, agora sólidos e sustentados no ar por duas asas de aparência coriácea. As criaturas revolviam-se com agilidade nos céus.

Os trovões voltaram e o romano percebeu a origem deles: aqueles seres comunicavam-se através dos sons cavernosos, exibindo presas do tamanho das lâminas de gládios.

E então eles mesclaram-se nas nuvens e desapareceram.

E os gritos desesperados dos soldados começaram, atravessando a neblina e chegando aos ouvidos de Belisário.

– Nós precisamos nos retirar – Félix disse, o tremor na voz indicando que ele também vira as criaturas.

O comandante sentiu as entranhas encolherem.

– Nunca – Belisário respondeu. Aquilo significaria o fim da sua carreira; nada de recompensas ou de desfile triunfal pelas avenidas de Roma.

Somente desgraça.

– O senhor precisa fazer alguma coisa, antes que seja tarde demais!

Outros gritos ecoaram de dentro da neblina, apenas para serem silenciados abruptamente. O vento soprou, trazendo o cheiro de sangue.

A breve imagem daquelas criaturas atravessou a mente de Belisário por um momento.

Sim, ele tinha que fazer algo. Algo que fora realizado em Veios e Cartago, centenas de anos atrás.

Respirando fundo, Belisário desembainhou a espada. Empunhando-a na direção de Drwgg, agora escondida pela névoa, ele começou a prece:

– Sob sua liderança, ó poderoso Marte, e inspirado pela tua força, eu avanço para destruir esta cidade e a ti prometo um décimo dos despojos.

As gotas de chuva gelada atingiam o corpo do romano como um chicote.

– Ao mesmo tempo, rogo às divindades que habitam Drwgg a abandoná-la e nos acompanharem até Roma, onde um templo será erguido para que sejam homenageadas, persistindo assim sua veneração.

E dizendo isso, Belisário abaixou a espada.

O som da batalha se dissipou, junto com a neblina. A chuva continuava a cair, mas não intensa como antes.

Belisário viu centenas de silures parados e de olhos arregalados, olhando de um lado para o outro, como se procurassem algo. Seus rostos pintados de vermelho expressavam mais do que surpresa.

Demonstravam medo, abandono e vulnerabilidade.

O comandante da Segunda Legião Augusta sorriu ao ordenar um novo ataque.

 * 

Belisário sorvia o vinho da taça. Sozinho em seu alojamento no forte de Glevum, ele escutava a comemoração dos legionários no pátio, agora satisfeitos depois da tomada de Drwgg três dias atrás. Era verdade que as baixas entre os romanos foram maiores do que esperado, mas Belisário sabia que a derrota daquele clã de silures soaria bem em Roma, com recompensas em médio prazo. Talvez até mesmo uma nomeação como procônsul.

O comandante pousou a taça na mesa e percebeu que não estava sozinho. Do outro lado do cômodo, um desconhecido vestido de negro o olhava.

Belisário tentou se mover, mas não conseguiu. As palavras estancaram na garganta.

A única coisa que ele podia fazer era observar o homem – uma teia de cicatrizes cobrindo a sua pele escura desde o crânio pelado até a mandíbula saliente – aproximar-se sem pressa. O estranho encostou os lábios no ouvido de Belisário.

– Obrigado – disse, a voz grave como um trovão – Eu já estava cansado desse clima úmido.

Um berro soou lá fora. Belisário sentiu o corpo obedecer-lhe mais uma vez e, com um salto, agarrou sua espada.

Mas o quarto estava vazio.

Um tumulto começava no pátio. Ele correu e viu Ambrósio debatendo-se no solo, saliva escorrendo pelo queixo e gritando palavras desconexas:

– Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath, Cthulhu! – Ao ver o comandante, ele o agarrou pelos ombros e concluiu numa voz trêmula – Você tem ideia do que fez a Roma?

E dizendo isso, Ambrósio soltou um uivo doloroso.

Belisário engoliu em seco: o sacerdote enlouquecera.

Aquilo não era um bom sinal.

(conto publicado originalmente na revista Scarium nº 21- Especial Lovecraft)

 

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