Imaginários – volumes 1 e 2

Quando se trata de antologia de gênero, não é raro que seu conteúdo seja desequilibrado: às vezes, textos bons ficam soterrados numa avalanche de contos ruins ou, na melhor das hipóteses, medianos. E a culpa, neste caso, é do organizador que não fez direito o trabalho de seleção.

Este não é o caso dos dois volumes da coleção Imaginários, da Editora Draco. Lançados simultaneamente no final de 2009, trazem vinte contos de fantasia, ficção científica e horror – reunidos por Eric Novello, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz – de alta qualidade, com a presença de autores veteranos e novatos do Brasil e de Portugal.

Gerson Lodi-Ribeiro abre muito bem o primeiro volume com a ficção científica Coleira de Amor. Numa sociedade em que emoções são manipuladas por biochips, um recém-viúvo tenta lidar com a dor da perda. Conto muito bem elaborado, com uma reviravolta de consequências trágicas.

Com Eu, A Sogra, Giulia Moon mostra a divertida história de uma bruxa moderna que, durante uma importante reunião de família, conhece a esposa do filho querido. Os pontos fortes deste excelente conto são a personagem principal e a ambientação.

Jorge Luis Calife colabora com Veio… Novamente, uma trama envolvendo o contato entre alienígenas e uma família americana no meio do deserto. É um conto com bom desenvolvimento – apesar do início morno -, mas com um final que deixa a desejar.

A Encruzilhada, de Ana Lúcia Merege, é o conto representante da fantasia medieval na antologia. Um mago procura por uma fonte mágica de água e acaba por encontrar um jovem que poderá ser seu aprendiz. A trama bem conduzida e os personagens são os atrativos deste conto.

Já Carlos Orsi mostra, com Por Toda a Eternidade, que “menos é mais”: nesta mistura de ficção científica e história policial de apenas três páginas, encontramos amor, traição, crime, raças alienígenas e uma reviravolta bem elaborada que leva a um final inesperado.

Twist my sobriety, de Flávio Medeiros, é outro conto excelente. Alienígenas de aparência vegetal  resolvem ajudar a Terra; neste cenário, um homem contrário à interferência das criaturas descobre um novo amor. O personagem principal, a ambientação e a conclusão são os destaques desta história.

Com Toque do Real: Óleo sobre Tela, Roberto de Souza Causo conta a história de um artista plástico que vê a realidade ao seu redor se transformar. O destaque neste ótimo conto fica pela descrição do mundo do personagem sendo alterado aos poucos.

Alma, de Osíris Reis, é um conto de ficção científica com cenário e personagem principal interessantes, mas que peca pelas descrições longas e cansativas, tornando a leitura arrastada em certos pontos.

Em Contigência, ou Tô pouco ligando, de Martha Argel, o personagem principal discorre, num tom bem-humorado, sobre a interferência do homem na natureza e o impacto provocado na realidade. É um ótimo conto com fundo ecológico e que vale uma releitura atenta.

Davi M. Gonzales cria uma atmosfera de suspense em Tensão Superficial, sabendo provocar curiosidade pela trama, na qual dois rapazes exploram um prédio antigo; infelizmente, o final fraco não corresponde ao suspense criado desde o início.

Richard Diegues fecha com chave de ouro o volume com Planeta Incorruptível, outra história sobre o contato da Terra com extraterrestres, mas que desta vez envolve religião na trama; uma boa mistura de ficção científica e horror.

O segundo volume traz contos dos organizadores, assim como de quatro autores portugueses:

Se Acordar Antes de Morrer, de João Barreiros, tem como personagem um robô programado para ser Papai Noel de loja, mas que acaba enfrentando inusitados clientes num Natal apocalíptico; é, sem dúvida, um dos melhores contos da antologia.

Saint-Claire Stockler mostra, em Às vezes eu os vejo, uma mulher que encontra estranhos seres numa cidade do interior; personagem e ambientação aqui garantem um ótimo conto, ainda que o final deixe a desejar.

Flor do Trovão, de Jorge Candeias, conta a história de uma sociedade alienígena e da sua crença na vinda de um salvador, neste caso, a personagem principal. Narrativa, personagem e cenário combinam com perfeição neste conto que tem um quê de fábula.

Na ficção científica Toque Invisível, de Alexandre Heradia, uma empresa desenvolve acidentalmente uma inteligência artificial. Apesar do tema batido e do enredo previsível em um primeiro momento, o conto tem um bom desfecho.

O Cheiro de Suor, de Eric Novello, apresenta um personagem perturbado – e com a habilidade de virar lobisomem –  que se envolve com o submundo do crime, na melhor tradição noir; é uma excelente mistura de fantasia com história policial.

Sacha Ramos, com A Rosa Negra, mostra um rapaz forçado a cuidar dos negócios da família e que deseja deixar aquela vida para trás. História com começo e desenvolvimento interessantes, mas com um final apressado que acaba por decepcionar.

A Casa de Um Homem, de Luís Filipe Silva, é uma ficção científica com uma ótima dose de ação, na qual um homem procura pela sua casa roubada. Os destaques do conto são a personagem principal e a ambientação opressiva.

Tibor Moricz mostra, em Eu te amo, papai, uma sociedade que explora crianças para gerar energia, até que uma delas  se rebela por um único motivo: encontrar o pai. A trama é muito bem conduzida, levando a um final inesperado e coerente com a história.

Uma Questão de Língua de André Carneiro, encerra o volume, com a trama de um homem tentando conquistar uma moça, apreciadora de livros raros.  O estilo e a narrativa são os pontos fortes  neste conto.

Além dos contos selecionados, vale ressaltar o ótimo trabalho de produção da editora, a começar pelas capas ilustradas por Roko. E para quem gostou da coleção, a Draco vai lançar um terceiro volume, desta vez organizado por Erick Santos Cardoso e com textos de dez autores – inclusive eu – na Fantasticon 2010 .

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