Nascido na Alemanha do início do século XX, Konrad Sieg foi um wunderkind: aos cinco anos era fluente em três línguas, jogava xadrez com maestria e fez a vivissecção do seu cachorro de estimação, naquela que seria a primeira de muitas experiências científicas que faria ao longo da infância e adolescência. Não demorou em se destacar nas mais diversas áreas do conhecimento e, antes de completar vinte e cinco anos, formou-se com louvor em Medicina, Química, Física e Engenharia. Adolf Hitler considerava o rapaz de cabelos e olhos claros o cidadão ariano perfeito, um exemplo a ser seguido por toda a população alemã.
Com seu intelecto privilegiado, foi apenas uma questão de tempo para se tornar o principal cientista do temido Departamento de Pesquisa Especial do Terceiro Reich, inventando vários dispositivos para o exército e usando judeus, ciganos, homossexuais e prisioneiros de guerra como cobaias em experimentos mais ousados.
— Nossos espiões informam que Sieg está sob grande pressão, enfurnado num laboratório secreto para construir a arma que impeça a derrota dos alemães — o homem com a farda blindada de medalhas disse ao oficial do outro lado da mesa de mogno; lá fora, a neve daquele inverno de 1944 caía sem parar sobre o prédio militar em Washington, D.C. — Depois de muito trabalho, finalmente descobrimos esse esconderijo nos Alpes. É por isso que foi você vai invadi-lo, capturar Sieg e trazer para cá esse chucrute filho da mãe.
O oficial, seu uniforme pesado com medalhas numa quantidade menor que as do seu superior hierárquico, apenas assentiu em silêncio como um bom soldado. No dia seguinte, partiu para cumprir sua missão.
Ainda que soubesse da dificuldade dela, ele nunca imaginaria o horror que encontraria no covil do mais perverso dos cientistas nazistas, em um cenário com homens e animais enjaulados, máquinas sinistras e experiências macabras.
E muito menos que a batalha entre os dois lados acabasse numa estranha explosão de chamas azuis e geladas, tão violenta a ponto de deixar uma cratera no lugar do laboratório e de eliminar qualquer evidência humana na área. Sem sinal dos corpos, foram considerados mortos pelos seus respectivos governos.
Uma decisão apressada e completamente equivocada.
1.
Estados Unidos, 1884.
O tiro do revólver ecoou pelo bosque, seguido por um grito de dor.
— Deixem o menino em paz — disse Cormac Velasco, o cano do Colt que empunhava soprando um fio de fumaça. À sua frente, um homem de barba negra e cerrada gemia ajoelhado na grama, enquanto uma mancha se espalhava com rapidez pelo centro da sua calça de brim, escurecendo o tecido.
— Você me castrou! — ele berrou. Dois outros homens encontravam-se parados ao seu lado, após presenciarem o quão rápido a arma fora sacada pelo sujeito de pele curtida.
— Só vou dizer mais uma vez — Velasco puxou o cão da Colt — Soltem o garoto.
E com o queixo, apontou para a criança no meio do trio. De perto, ela parecia ser ainda mais frágil.
Momentos antes, Velasco cavalgava despreocupado por uma estrada abandonada no Colorado, um atalho que lhe permitiria chegar mais rápido no seu destino ao cortar caminho por um bosque nas colinas. Ele só não contava com aquele menino atravessando na sua frente e muito menos com os três sujeitos logo atrás, seus olhos brilhando num misto de cobiça e lascívia perversa enquanto arrastavam a criança para uma clareira.
Aquilo foi o suficiente para Velasco desmontar do cavalo. De tão entretidos que estavam em capturar sua presa, o trio nem percebeu sua presença.
O disparo da Colt chamara a atenção deles.
— Ok! — o homem ajoelhado, lágrimas de dor escorrendo até estancarem na barba, voltou-se para os companheiros — Soltem logo o menino.
— Mas, Clifton, — disse o mais alto — a gente teve tanto trabalho pra capturar essa peste.
— É — o terceiro homem, um sujeito magrelo, confirmou. — Por que diabos a gente vai dar de mão beijada pra —
— Calem a boca e façam o que eu digo! Não veem que preciso de um médico pra me remendar?
Aparentemente, eles não viam; ao invés de obedecer, a dupla se entreolhou.
Velasco sabia muito bem o que viria a seguir.
O homem alto levou a mão ao coldre na cintura e o companheiro imitou o gesto. Os revólveres mal tinham saído dos seus coldres quando o Colt disparou duas vezes.
A dupla tombou na clareira quase que ao mesmo tempo, um buraco no centro de cada torso.
Clifton, único sobrevivente do antigo trio, não perdeu a oportunidade: com um pulo, disparou pelos pinheiros, segurando o ferimento com as mãos. Velasco atirou, mas seu alvo ziguezagueava pelo bosque cerrado; as balas apenas lascavam as árvores. Abaixou a arma e então viu o garoto, ali no meio dos dois homens que só voltariam a se levantar se acreditassem no Juízo Final.
Ele tinha os olhos grandes, de um azul intenso como o do céu de outono acima. A pele era muito branca, contrastando com os lisos cabelos negros. Era também miúdo; devia ter a altura de Neil, o irmão que Velasco deixara no Texas.
— Você está bem? — o homem guardou a Colt e esboçou um sorriso, as pontas do bigode se erguendo. O menino confirmou, balançando a cabeça.
Foi então que Velasco viu a estranha marca no antebraço esquerdo dele.
O desenho era de uma pequena cruz simétrica inclinada à direita, suas quatro extremidades terminando em ângulos retos voltados também para o lado direito. Na pele pálida, a figura se destacava por uma razão:
Fora marcada com ferro em brasa.
Velasco franziu o cenho. Em seus trinta e poucos anos de vida — fosse como batedor do exército, caçador de peles, guia de caça, cowboy —, ele pensava já ter visto de tudo em matéria de crueldade humana.
Estava prestes a perguntar o que significava o símbolo quando uma cacofonia irrompeu das entranhas do bosque. De imediato, pensou que era uma locomotiva se aproximando: os sons metálicos das engrenagens sobre os trilhos, do rugido da fornalha sendo alimentada, do sibilo prolongado do vapor liberado chegavam até seus ouvidos.
O problema era que a estrada de ferro mais próxima se encontrava a quilômetros de distância.
O cavalo de Velasco relinchou na entrada da clareira, o pavor brilhando nos olhos.
O barulho ficou perto. Velasco voltou-se na direção das árvores e distinguiu outros ruídos: grunhidos, guinchos, rosnados. Um cheiro envenenava o ar, mistura de carne podre e madeira queimada.
O que quer que fosse, aquilo não era um bom sinal; Velasco precisava proteger a si e a criança. Sacou o revólver e se virou para ela.
O menino não estava mais lá.
E de repente, a cacofonia se encerrou.
Velasco procurou a criança por alguns minutos na clareira, sem resultado. Talvez ela tivesse corrido ao ouvir os ruídos e voltado para casa. De qualquer modo, Velasco já não podia fazer mais nada; só lhe restava montar o cavalo e tomar a estrada de novo para não chegar atrasado ao compromisso que tinha.
Foi ao sair da clareira que notou a silhueta encravada no morro. Estreitando os olhos, Velasco viu parte de uma casa, escondida parcialmente pela vegetação de pinheiros altos. Uma fumaça negra e espessa serpenteava de uma chaminé até macular o céu azul.
O cavalo se agitou sob a sela. Velasco compartilhava da mesma inquietação, e por um motivo bem claro: tinha a impressão que estavam sendo observados.
Ele enterrou as esporas no cavalo e o animal disparou aliviado pela estrada de terra.
Se Velasco ficasse mais alguns segundos, teria visto uma sombra grande se mover pelas árvores, avançando na direção dos cadáveres na clareira.
E abrir uma boca faminta, cheia de dentes pontiagudos.
CONTINUA











