Galvanizado

por Marcelo Augusto Galvão

  • Ebook

  • Vida e morte do último astro pornô da Terra

  • Conto em antologia

  • Inferno de Dantès

  • Das reminiscências do Dr. Ormond Sacker, clínico geral

  • Horror em Sangre de Cristo

  • Vida e morte do último astro pornô da Terra

  • Magnum Opus

  • Outras publicações

    Sonho Ruim

  • Augúrio

  • Linha Negra

  • Criança Feia

Arquivo da categoria ‘Contos’

Cowboys nazistas não usam Colt – 1ª parte

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 27/05/2011

Nascido na Alemanha do início do século XX, Konrad Sieg foi um wunderkind: aos cinco anos era fluente em três línguas, jogava xadrez com maestria e fez a vivissecção do seu cachorro de estimação, naquela que seria a primeira de muitas experiências científicas que faria ao longo da infância e adolescência. Não demorou em se destacar nas mais diversas áreas do conhecimento e, antes de completar vinte e cinco anos, formou-se com louvor em Medicina, Química, Física e Engenharia. Adolf Hitler considerava o rapaz de cabelos e olhos claros o cidadão ariano perfeito, um exemplo a ser seguido por toda a população alemã.

Com seu intelecto privilegiado, foi apenas uma questão de tempo para se tornar o principal cientista do temido Departamento de Pesquisa Especial do Terceiro Reich, inventando vários dispositivos para o exército e usando judeus, ciganos, homossexuais e prisioneiros de guerra como cobaias em experimentos mais ousados.

— Nossos espiões informam que Sieg está sob grande pressão, enfurnado num laboratório secreto para construir a arma que impeça a derrota dos alemães — o homem com a farda blindada de medalhas disse ao oficial do outro lado da mesa de mogno; lá fora, a neve daquele inverno de 1944 caía sem parar sobre o prédio militar em Washington, D.C. — Depois de muito trabalho, finalmente descobrimos esse esconderijo nos Alpes. É por isso que foi você vai invadi-lo, capturar Sieg e trazer para cá esse chucrute filho da mãe.

O oficial, seu uniforme pesado com medalhas numa quantidade menor que as do seu superior hierárquico, apenas assentiu em silêncio como um bom soldado. No dia seguinte, partiu para cumprir sua missão.

Ainda que soubesse da dificuldade dela, ele nunca imaginaria o horror que encontraria no covil do mais perverso dos cientistas nazistas, em um cenário com homens e animais enjaulados, máquinas sinistras e experiências macabras.

E muito menos que a batalha entre os dois lados acabasse numa estranha explosão de chamas azuis e geladas, tão violenta a ponto de deixar uma cratera no lugar do laboratório e de eliminar qualquer evidência humana na área. Sem sinal dos corpos, foram considerados mortos pelos seus respectivos governos.

Uma decisão apressada e completamente equivocada.

1.

Estados Unidos, 1884.

O tiro do revólver ecoou pelo bosque, seguido por um grito de dor.

— Deixem o menino em paz — disse Cormac Velasco, o cano do Colt que empunhava soprando um fio de fumaça. À sua frente, um homem de barba negra e cerrada gemia ajoelhado na grama, enquanto uma mancha se espalhava com rapidez pelo centro da sua calça de brim, escurecendo o tecido.

— Você me castrou! — ele berrou. Dois outros homens encontravam-se parados ao seu lado, após presenciarem o quão rápido a arma fora sacada pelo sujeito de pele curtida.

— Só vou dizer mais uma vez — Velasco puxou o cão da Colt — Soltem o garoto.

E com o queixo, apontou para a criança no meio do trio. De perto, ela parecia ser ainda mais frágil.

Momentos antes, Velasco cavalgava despreocupado por uma estrada abandonada no Colorado, um atalho que lhe permitiria chegar mais rápido no seu destino ao cortar caminho por um bosque nas colinas. Ele só não contava com aquele menino atravessando na sua frente e muito menos com os três sujeitos logo atrás, seus olhos brilhando num misto de cobiça e lascívia perversa enquanto arrastavam a criança para uma clareira.

Aquilo foi o suficiente para Velasco desmontar do cavalo. De tão entretidos que estavam em capturar sua presa, o trio nem percebeu sua presença.

O disparo da Colt chamara a atenção deles.

— Ok! — o homem ajoelhado, lágrimas de dor escorrendo até estancarem na barba, voltou-se para os companheiros — Soltem logo o menino.

— Mas, Clifton, — disse o mais alto — a gente teve tanto trabalho pra capturar essa peste.

— É — o terceiro homem, um sujeito magrelo, confirmou. — Por que diabos a gente vai dar de mão beijada pra —

— Calem a boca e façam o que eu digo! Não veem que preciso de um médico pra me remendar?

Aparentemente, eles não viam; ao invés de obedecer, a dupla se entreolhou.

Velasco sabia muito bem o que viria a seguir.

O homem alto levou a mão ao coldre na cintura e o companheiro imitou o gesto. Os revólveres mal tinham saído dos seus coldres quando o Colt disparou duas vezes.

A dupla tombou na clareira quase que ao mesmo tempo, um buraco no centro de cada torso.

Clifton, único sobrevivente do antigo trio, não perdeu a oportunidade: com um pulo, disparou pelos pinheiros, segurando o ferimento com as mãos. Velasco atirou, mas seu alvo ziguezagueava pelo bosque cerrado; as balas apenas lascavam as árvores. Abaixou a arma e então viu o garoto, ali no meio dos dois homens que só voltariam a se levantar se acreditassem no Juízo Final.

Ele tinha os olhos grandes, de um azul intenso como o do céu de outono acima. A pele era muito branca, contrastando com os lisos cabelos negros. Era também miúdo; devia ter a altura de Neil, o irmão que Velasco deixara no Texas.

— Você está bem? — o homem guardou a Colt e esboçou um sorriso, as pontas do bigode se erguendo. O menino confirmou, balançando a cabeça.

Foi então que Velasco viu a estranha marca no antebraço esquerdo dele.

O desenho era de uma pequena cruz simétrica inclinada à direita, suas quatro extremidades terminando em ângulos retos voltados também para o lado direito. Na pele pálida, a figura se destacava por uma razão:

Fora marcada com ferro em brasa.

Velasco franziu o cenho. Em seus trinta e poucos anos de vida — fosse como batedor do exército, caçador de peles, guia de caça, cowboy —, ele pensava já ter visto de tudo em matéria de crueldade humana.

Estava prestes a perguntar o que significava o símbolo quando uma cacofonia irrompeu das entranhas do bosque. De imediato, pensou que era uma locomotiva se aproximando: os sons metálicos das engrenagens sobre os trilhos, do rugido da fornalha sendo alimentada, do sibilo prolongado do vapor liberado chegavam até seus ouvidos.

O problema era que a estrada de ferro mais próxima se encontrava a quilômetros de distância.

O cavalo de Velasco relinchou na entrada da clareira, o pavor brilhando nos olhos.

O barulho ficou perto. Velasco voltou-se na direção das árvores e distinguiu outros ruídos: grunhidos, guinchos, rosnados. Um cheiro envenenava o ar, mistura de carne podre e madeira queimada.

O que quer que fosse, aquilo não era um bom sinal; Velasco precisava proteger a si e a criança. Sacou o revólver e se virou para ela.

O menino não estava mais lá.

E de repente, a cacofonia se encerrou.

Velasco procurou a criança por alguns minutos na clareira, sem resultado. Talvez ela tivesse corrido ao ouvir os ruídos e voltado para casa. De qualquer modo, Velasco já não podia fazer mais nada; só lhe restava montar o cavalo e tomar a estrada de novo para não chegar atrasado ao compromisso que tinha.

Foi ao sair da clareira que notou a silhueta encravada no morro. Estreitando os olhos, Velasco viu parte de uma casa, escondida parcialmente pela vegetação de pinheiros altos. Uma fumaça negra e espessa serpenteava de uma chaminé até macular o céu azul.

O cavalo se agitou sob a sela. Velasco compartilhava da mesma inquietação, e por um motivo bem claro: tinha a impressão que estavam sendo observados.

Ele enterrou as esporas no cavalo e o animal disparou aliviado pela estrada de terra.

Se Velasco ficasse mais alguns segundos, teria visto uma sombra grande se mover pelas árvores, avançando na direção dos cadáveres na clareira.

E abrir uma boca faminta, cheia de dentes pontiagudos.

CONTINUA

Enviado em Contos | Etiquetado: , | Deixar um comentário »

Augúrio

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 05/04/2011

Fausto Aurélio Belisário, comandante da Segunda Legião Augusta, sorriu com a notícia que acabara de ouvir. O homem ao seu lado continuou a falar:

- Os revoltosos vivem em Drwgg, uma cidade a dois dias de marcha, senhor – Cornélio Félix relatou o informe de um dos espiões infiltrados no oeste da Bretanha. Momentos antes, Félix havia comunicado ao seu superior hierárquico que os silures, uma tribo nativa da região, preparavam uma nova rebelião contra o Império Romano.

De uma varanda coberta, Belisário observava dezenas de legionários exercitando-se no pátio exterior do forte de Glevum. Uma chuva torrencial caía, algo bem conhecido dos romanos desde que as tropas do então imperador Cláudio invadiram aquela ilha úmida, vinte e quatro anos atrás. A frequência era quase diária, principalmente no começo do verão.

Como comandante da legião, Belisário podia suportar intempéries diversas. O que ele não tolerava eram homens incapazes de governar.

Era o caso do atual procônsul da província da Bretanha. Sem experiência militar anterior, Marco Trebélio Máximo decidira continuar o trabalho dos seus antecessores, consolidando o poder sobre as tribos já conquistadas e fazendo uma ou outra concessão para agradar aos nativos, ao invés de batalhar por novos territórios. Transformara a ilha em um lugar seguro para o império.

E em um completo tédio para os legionários. Sem combates, não havia butim dos inimigos para complementar os salários das legiões. O descontentamento entre soldados e oficiais era cada vez maior; uma insurreição poderia estourar a qualquer momento entre as fileiras romanas.

Felizmente, havia os silures, habitantes das montanhas que tomavam conta da maior parte da paisagem. Aquele povo, de pele mais escura que a dos outros nativos, era famoso por sua beligerância; ao longo de quase três décadas de ocupação, os romanos nunca conseguiram derrotá-los por completo. Na opinião de Belisário, faltava alguém de pulso firme para lidar com os revoltosos. O comandante que eliminasse aquela resistência seria recompensado à altura por Nero, o sucessor de Cláudio.

Um relâmpago cortou o céu acinzentado, dividindo o firmamento em dois por um breve momento. Belisário sorriu.

- Isto é um bom sinal, Félix – ele disse para o segundo em comando – Marte ouviu nossas preces.

#

Os brados de guerra dos silures ecoavam pelas montanhas, suas espadas e lanças chocando-se contra os gládios e escudos dos legionários. Da retaguarda e protegido por soldados, Belisário observava o seu objetivo, localizado no topo de um morro rochoso: Drwgg, cercada por fossos, paliçadas e muros de pedra. Há mais de seis horas que os legionários tentavam invadi-la; cerca de quinhentos guerreiros, ostentando pinturas vermelhas de guerra pelos corpos, atacavam com tenacidade os três mil invasores. A chuva gelada, nunca bem-vinda, era agora inimiga dos romanos: tornara escorregadias as rochas do monte e num lodaçal a única estrada de acesso.

Soldados retrocediam das suas posições, passando por cima dos cadáveres dos seus companheiros, mutilados pelas lâminas dos silures. Um canto monocórdico soava a partir da cidade fortificada, propagando-se pelo campo de batalha.

Vendo tudo aquilo, Belisário lembrou-se das palavras de Plínio Ambrósio.

- Não vá – o sacerdote avisara, dois dias atrás. O homem de tez pálida encontrava-se no templo dedicado ao culto do imperador, no forte em Glevum. Nas mãos, levava uma tigela de barro.

- É o que os deuses anunciam através deste sacrifício? – Belisário aproximou-se de Ambrósio e olhou para o interior da vasilha, na qual as entranhas de uma ave recém-abatida repousavam; o cheiro de sangue tomava conta do templo pequeno. Obedecendo a uma tradição de séculos, Belisário consultara o vidente antes de partir para a batalha.

- Em parte, sim – A mão de Ambrósio revolveu as vísceras sem pressa, até retirar um diminuto coração rubro. – Mas também tenho visto maus sinais ao redor do forte.

O sacerdote observou o coração com a atenção que um joalheiro devotaria a uma pedra preciosa.

- Corujas empoleiradas em árvores, por exemplo. Corvos voando em círculos sobre o forte. – ele abriu os dedos e o órgão da ave afundou na tigela com um som flácido – E tem o meu pesadelo.

- Não tem dormido bem? – Belisário reparou nas olheiras da cor de carvão do homem.

- Há dias que tenho o mesmo sonho – o sacerdote disse, seu olhar fixo na vasilha – São imagens de uma cidade de edifícios tão colossais que fariam Roma parecer uma aldeia. O sol brilha forte no alto, iluminando as imensas ruas desertas e fazendo com que as sombras dos prédios negros alastrem-se em direção do Leste.

Um leve tremor agora atingia as mãos de Ambrósio.

- De repente, a noite surge. E, ainda assim, vejo manchas enormes rastejando por um céu de estrelas que desconheço por completo. O único som ali é um cântico que ecoa pela cidade de pedra.

- Você precisa descansar – Belisário sabia como videntes geralmente tinham uma sensibilidade acima do normal – Esta é uma ótima oportunidade que tenho – ele pigarreou – que o império tem de esmagar estes nativos para sempre. Espero que não tenha comentado seus augúrios com qualquer um dos meus homens.

- Nada falei, mas isto não impede que eles conheçam os boatos que ouvi. – Ambrósio deixou a tigela sobre uma mesa – Dizem que os silures de Drwgg foram banidos da tribo principal por abandonarem a adoração de suas divindades, depois que um forasteiro surgiu divulgando um novo culto.

O sacerdote virou-se para Belisário.

- O estrangeiro tem cicatrizes por todo o rosto e a pele mais escura que a dos nativos, sendo chamado por eles de “Homem Negro”. Afirma ser o mensageiro de deuses poderosos e prometeu que, em troca de devoção absoluta, Drwgg seria protegida contra qualquer ataque.

O comandante balançou a cabeça.

- Tolice – disse e viu o outro homem fazer uma careta ligeira, evidentemente desgostoso com Belisário – Porém, se você faz tanta consideração, posso até realizar uma evocação.

Ele se referia ao ritual religioso no qual as divindades de uma cidade eram convidadas a abandoná-la, facilitando a conquista pelos romanos e, em troca, ganhavam a garantia de que seriam abrigadas e adoradas em Roma; a lenda contava que Cartago e a cidade etrusca de Veios foram conquistadas desse jeito. Belisário prosseguiu:

- Mas tenho certeza que será desnecessário.

- Senhor! – a voz de Félix trouxe Belisário de volta à batalha. O comandante viu o segundo em comando aproximar-se ofegante. – Temos que nos retirar.

Belisário, cenho franzido, o encarou.

- E por que nós faríamos isso?

- Nossas perdas estão altas e não conseguimos avançar. Não sei como, mas os silures parecem mais resistentes do que o normal. – Um estrondo de trovão soou no céu cinza, abafando por um instante o barulho do embate. A cantoria na cidade, no entanto, aumentou de intensidade. – Vi um deles ser trespassado por uma lança e mesmo assim continuar a lutar, como se nada tivesse acontecido, sem qualquer emoção no rosto, só tombando quando o degolaram. Há um boato entre nossas fileiras de que essa cantoria é parte de uma cerimônia para sacrifício dos soldados capturados.

- Não importa – Belisário resmungou, pensando se o soldado tinha conversado com Ambrósio. – Nós temos que tomar aquele morro e é o que faremos para -

Mas Félix não prestava atenção. Ao invés disso, falou:

- O que aconteceu com o céu?

Belisário seguiu o olhar de Félix. Nuvens cinzas, prenhes de água, desciam para quase tocarem o solo, criando uma névoa densa em volta dos romanos. O dia tornou-se noite em questão de segundos.

Novos trovões soaram, desta vez prolongados e semelhantes aos rugidos de alguma fera.

Foi quando Belisário viu as quatro silhuetas.

Inicialmente, pensou que fossem nuvens, mais escuras e compridas que as outras. Mudou de idéia ao ver uma película viscosa cobrir toda a extensão dos seus corpos negros e gigantescos, agora sólidos e sustentados no ar por duas asas de aparência coriácea. As criaturas revolviam-se com agilidade nos céus.

Os trovões voltaram e o romano percebeu a origem deles: aqueles seres comunicavam-se através daqueles sons cavernosos, exibindo presas do tamanho das lâminas de gládios.

E então eles mesclaram-se nas nuvens e desapareceram.

E os gritos desesperados dos soldados começaram, atravessando a neblina e chegando aos ouvidos de Belisário.

- Nós precisamos nos retirar! – Félix disse, o tremor na voz indicando que ele também vira as criaturas.

O comandante sentiu as entranhas encolherem.

- Nunca – Belisário respondeu. Aquilo significaria o fim da sua carreira; nada de recompensas ou de desfile triunfal pelas avenidas de Roma.

Somente desgraça.

- O senhor precisa fazer alguma coisa, antes que seja tarde demais!

Outros gritos ecoaram de dentro da neblina, apenas para serem silenciados abruptamente. O vento soprou, trazendo o cheiro de sangue.

A breve imagem daquelas criaturas atravessou a mente de Belisário por um momento.

Sim, ele tinha que fazer algo. Algo que fora realizado em Veios e Cartago, centenas de anos atrás.

Respirando fundo, Belisário desembainhou a espada. Empunhando-a na direção de Drwgg, agora escondida pela névoa, ele começou a prece:

- Sob sua liderança, ó poderoso Marte, e inspirado pela tua força, eu avanço para destruir esta cidade e a ti prometo um décimo dos despojos.

As gotas de chuva gelada atingiam o corpo do romano como um chicote.

- Ao mesmo tempo, rogo às divindades que habitam Drwgg a abandoná-la e nos acompanharem até Roma, onde um templo será erguido para que sejam homenageadas, persistindo assim sua veneração.

E dizendo isso, Belisário abaixou a espada.

O som da batalha se dissipou, junto com a neblina. A chuva continuava a cair, mas não intensa como antes.

Belisário viu centenas de silures parados e de olhos arregalados, olhando de um lado para o outro, como se procurassem algo. Seus rostos pintados de vermelho expressavam mais do que surpresa.

Demonstravam medo, abandono e vulnerabilidade.

O comandante da Segunda Legião Augusta sorriu ao ordenar um novo ataque.

#

Belisário sorvia o vinho da taça. Sozinho em seu alojamento no forte de Glevum, ele escutava a comemoração dos legionários no pátio, agora satisfeitos depois da tomada de Drwgg, três dias atrás. Era verdade que as baixas entre os romanos foram maiores do que esperado, mas Belisário sabia que a derrota daquele clã de silures soaria bem em Roma, trazendo-lhe recompensas a médio prazo. Talvez até mesmo uma nomeação como procônsul.

O comandante pousou a taça na mesa e percebeu que não estava sozinho. Do outro lado do cômodo, um desconhecido vestido de negro o olhava.

Belisário tentou se mover, mas não conseguiu. As palavras estancaram na garganta.

A única coisa que ele podia fazer era observar o homem – uma teia de cicatrizes cobrindo a sua pele escura desde o crânio pelado até a mandíbula saliente – aproximar-se sem pressa. O estranho encostou os lábios no ouvido de Belisário.

- Obrigado – disse, a voz grave como um trovão. – Eu já estava cansado desse clima úmido.

Um berro soou lá fora. Belisário sentiu o corpo obedecer-lhe mais uma vez e, com um salto, agarrou sua espada.

Mas o quarto estava vazio.

Um tumulto começava no pátio. Ele correu e viu Ambrósio debatendo-se no solo, saliva escorrendo pelo queixo e gritando palavras desconexas:

- Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath, Cthulhu! – Ao ver o comandante, ele o agarrou pelos ombros e concluiu numa voz trêmula – Você tem ideia do que fez a Roma?

E dizendo isso, Ambrósio soltou um uivo doloroso.

Belisário engoliu em seco: o sacerdote enlouquecera.

Aquilo não era um bom sinal.

(conto originalmente publicado na Scarium nº 21- Especial Lovecraft)

Enviado em Contos | Etiquetado: , | 6 Comentários »

Comandante Zênite e a Ilha Flutuante

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 17/03/2011

Empunhando as duas pistolas Colt.45, Emily Enton caminhou com cautela pelo lugar que não deveria existir – afinal, ela estava numa ilha que flutuava a trinta quilômetros de altura da superfície da Terra e onde a temperatura deveria estar entre -50º e 10º C.

Mas naquele momento, vestida em seu uniforme de aviadora, ela não sentia frio. Uma brisa agradável soprava os cabelos loiros que escapavam pelo capacete de couro. Com um pouco de boa vontade, era possível até imaginar que se encontrava numa praia durante o verão.

Pena que as criaturas flutuando ao seu redor não combinassem com o cenário.

A famosa aventureira percebera a presença dos seres no momento que sobrevoou o que parecia ser um aglomerado de nuvens. Seu primeiro pensamento foi de que eles eram alguma espécie de balão meteorológico, mas a visão de veias pulsando nos corpos acinzentados a fez mudar de ideia. A estranheza só aumentou assim que descobriu a possibilidade de pousar o Zenitê-X1 naquele pedaço improvável de terra do tamanho de Manhattan. Uma névoa cobria a superfície, exalando um odor semelhante ao do diesel usado como combustível no seu aeroplano.

Emily Enton sorriu. Não era todo dia que se deparava com um boato transformado em realidade: rumores sobre “feras atmosféricas” – criaturas que habitariam as camadas mais altas da atmosfera terrestre – circulavam há anos entre aviadores do globo; testemunhas diziam ter visto estranhos seres flutuantes na cidade de Crawfordsville, EUA, em 1891, e vinte e dois anos depois em Withyham, Inglaterra, mas ninguém comprovara qualquer indício da existência delas.

Pelo menos até hoje. Aquele achado por si só já seria fantástico, mesmo para Emily Enton, cujas façanhas ao redor do mundo sob o nome de Comandante Zênite, sozinha ou na companhia de outros aventureiros – enfrentando arranha-céus vivos em Nova York, derrubando um zepelim mal-assombrado no Rio ou correndo de um exército de robôs na casbá de Casablanca -, eram contadas nos pulps, rádio e cinema, transformando-a numa personalidade internacional pela sua sede de novas aventuras.

A diferença era que, desta vez, havia um fator pessoal na descoberta.

A euforia foi interrompida por uma dor lancinante que atravessou de súbito seu braço direito, uma sensação que ela não se acostumara depois de tantos anos.

- É a dor fantasma – dissera o pai uma década antes, após finalizar o implante da prótese mecânica na então adolescente Emily. Com a voz tranquila, o doutor Ellis Enton acrescentou que era comum amputados experimentarem, na forma de uma dor aguda, a sensação de que ainda possuíam o membro ligado ao corpo. Era algo que Emily deveria conviver, mesmo usando um braço artificial de última geração construído pelo próprio pai, um dos inventores mais famosos do mundo.

E que se tornou um homem obcecado desde o estranho acidente com o zepelim que matou a esposa e mutilou a filha. A causa da queda da aeronave nunca fora solucionada; os poucos sobreviventes – entre eles, Emily – diziam ter visto criaturas flutuantes atracando-se com o dirigível até derrubá-lo. Ninguém levou a sério aquela versão.

A não ser o Dr. Enton. Desde os tempos de criança prodígio no final do século XIX, quando se tornara famoso por criar invenções maravilhosas, ele aprendera a nunca descartar qualquer teoria, por mais fantástica que fosse. Enquanto nos anos seguintes Emily, já adaptada ao novo braço, dava seus primeiros passos como a destemida Comandante Zênite, Enton não parava de procurar alguma pista sobre o que realmente acontecera. Era comum ficar até tarde da noite no seu laboratório, investigando o céu com um potente telescópio e anotando suas observações em um diário que levava para todo lugar.

Uma década mais tarde, quando pensavam que ele havia desistido da obsessão, Ellis Enton sumiu ao pilotar um dos seus protótipos sobre o Atlântico. Em um primeiro momento, as autoridades americanas recearam que potências estrangeiras hostis o tivessem raptado; desde o final da Grande Guerra, não era incomum que cientistas fossem “convidados” a revelar seus segredos aos inimigos. Mas o governo mudou de ideia ao encontrar no litoral de Newburyport, Massachusetts, os destroços do Zênite-X e o corpo do cientista – na realidade, o que sobrou dele, já que nunca localizaram a cabeça decepada.

Foi a vez de Emily se tornar obcecada em descobrir o que aconteceu com o pai. Durante dias, tentou achar uma pista que a ajudasse, mas só conseguiu algo quando um pescador lhe entregou páginas do diário do Dr. Enton, encontradas espalhadas pelas praias de Newburyport. Com apenas alguns trechos legíveis e fora de ordem, a leitura se revelou um verdadeiro quebra-cabeça.

Existem mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia, escreveu o cientista na sua caligrafia miúda, numa entrada de meses antes. Nunca essa frase do bardo inglês se tornou tão verdadeira durante minha pesquisa em um território onde o vento, numa questão de segundos, transforma chumaços de algodão em dragões.

E agora, três semanas após o sumiço dele, Emily Enton estava entre as mesmas criaturas que haviam atacado o dirigível.

A dor fantasma desapareceu tão rápida quanto surgiu. Armas engatilhadas, a aventureira avançou, atenta a qualquer ruído na ilha. O sol começava a rasgar o nevoeiro e Emily conferia as tais feras flutuantes. Estreitando os olhos, percebeu que aqueles corpos amorfos e cinzas se mesclavam a pedaços de metal, agitando apêndices como tentáculos de uma medusa.

Mas não era só isso: ali perto, algo brilhava sob os raios solares.

A palavra “fera” leva uma pessoa a pensar em uma criatura irracional, bestial, desprovida de inteligência.

Nada mais errado.

Gigantescos domos metálicos reluziam na superfície árida, conectados uns aos outros por estruturas tubulares e maquinários bizarros, lembrando alguma espécie de usina. A aventureira se aproximou e estendeu uma das mãos para tocar na superfície da máquina.

Aquela ilha é mais do que um simples habitat de criaturas aéreas. O que vi ali é obra de uma inteligência que não tem nada de rudimentar. Ouso dizer que o intelecto dessa civilização é maior do que o da nossa.

- Não faça isso, Emily – disse alguém à esquerda. A moça girou o corpo, pistolas prontas para qualquer coisa que se movesse. Seu coração disparou, não apenas pelo susto, mas porque reconhecera aquela voz.

Era do pai.

A única coisa que havia ali era outra tubulação, sua extensão interrompida ao meio por uma esfera transparente. No seu interior, um cérebro flutuava em meio a um líquido cristalino, bolhas de ar se expandindo sem parar dentro do globo.

E fora dali que o som viera.

No céu, as feras se agitaram por um instante. Não foi só isso que ela notou: a ilha tremia, como em um terremoto.

- Eu recomendo que guarde as armas nos coldres – a voz do Dr. Ellis Enton, sem dúvida, se originava da esfera – agora mesmo.

Com cautela, ela obedeceu. O solo ainda se mexia, mas com um movimento ritmado.

Como uma respiração.

… nestes últimos dias, descobri que a tal “ilha” também é uma peculiar forma de vida,na qual carne se combina com dispositivos mecânicos. Ainda não inventei um método eficaz de comunicação com estes seres inteligentes, mas o que sei até agora é que a derrubada do dirigível, o mesmo que matou minha esposa e mutilou minha querida Emily, foi um acidente, uma confusão provocada pelo tamanho e forma da aeronave, equivocadamente tratado como um companheiro pelas “feras”…

A névoa sumira de vez. Emily Enton encarou a esfera, tentando falar algo, mas o cientista adiantou-se.

- Sei que está surpresa, filha. Existe uma explicação para meu desaparecimento.

Amanhã, pretendo me comunicar com eles usando o dispositivo que criei recentemente. Se funcionar, serei um estudante dessa cultura, promovendo um intercâmbio entre nossas civilizações, para então representá-la perante a Liga das Nações e mostrar que não é beligerante como muitos pensam.

Só espero resolver os problemas no motor do Zênite-X a tempo.

- Infelizmente, meu avião sofreu uma pane quando estava prestes a pousar aqui. O que restou do meu corpo estava além de qualquer socorro, mas tive a sorte da tecnologia avançada deles salvar meu cérebro.

As criaturas flutuantes agora desciam lentamente na direção da esfera transparente, com seus tentáculos se contorcendo no ar.

- Descobri que eles são extraterrenos e ficaram presos acidentalmente na nossa atmosfera, devido ao campo gravitacional da Terra. – Enton continuou; acima dele, três daqueles seres entrelaçavam seus tentáculos, tão unidos que pareciam ser um único organismo – Desde a minha chegada, trabalhamos juntos para solucionar este problema. E em troca da minha ajuda…

Emily Enton escutou um ruído seco, similar ao estalo de um osso sendo quebrado, e viu o topo da criatura do meio se abrir, mostrando uma cavidade na qual metal se misturava com carne.

- … eles nos ajudarão a viajar para as estrelas.

A aventureira notou que o interior daquele ser lembrava a cabine de um aeroplano, com espaço suficiente para acomodar uma pessoa. Ela estendeu a mão direita e tocou a superfície morna da criatura, que respondeu com um som que ficava entre o ronronar de um felino e o ronco de um motor.

A Comandante Zênite sorriu.

Enviado em Contos | Etiquetado: , , | Deixar um comentário »

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.