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por Marcelo Augusto Galvão

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Arquivo da categoria ‘Comentários’

Livros de 2011

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 19/12/2011

Tenho o costume de relacionar os livros lidos no ano, uma prática que comecei em 2000. Hoje em dia, com o Skoob e outros sites do gênero, ficou bem mais fácil atualizar a lista, mas ainda gosto de anotar no meu velho caderno.

Em 2011, fechei com 27 livros. Meu lado estatístico mostra aqui alguns dados, como 5 antologias (total de 59 autores), 4 livros de não-ficção e que o autor mais lido foi Cornell Woolrich. Os livros que se destacaram foram:

Cyber Brasiliana – Richard Diegues (Tarja). Este pós-cyberpunk foi comentado aqui.

Lovecraft Unbound - vários autores (Dark Horse). A veterana organizadora Ellen Datlow queria histórias inspiradas no trabalho de H. P. Lovecraft. Como resultado, obteve 20 contos de ótima qualidade – afinal, Datlow se cercou de feras como Michael ChabonCaitlín Kiernan e Joyce Carol Oates.

Neon Azul – Eric Novello (Draco). As 10 histórias com um cenário em comum e personagens que se entrecruzam em outras tramas tornam este romance fix-up uma ótima leitura, deixando mais perguntas do que respostas ao final.

Sagas – vol.1 – vários autores (Argonautas). A antologia de espada e feitiçaria foi resenhada aqui.

Revelation Space – Alastair Reynolds (Ace). Excelente combinação de space opera e ficção científica hard, subgêneros aparentemente excludentes – incluindo na mistura até mesmo um pouco de terror gótico, ao substituir a mansão decrépita e cheia de segredos por uma gigantesca nave misteriosa.

Space Opera - vários autores (Draco). Em um gênero atualmente mais conhecido no Brasil pela TV e cinema, os organizadores Hugo Vera e Larissa Caruso apostaram em 8 histórias com aventuras espaciais, todas de qualidade. Vale destacar os contos de Gerson Lodi-RibeiroFlávio Medeiros e Hugo Vera.

Casas de Vampiro – Flávio Medeiros (Tarja). Personagens redondos e trama envolvente são os pontos fortes desta história com vampiros, bem diferentes dos seres emasculados da saga Crepúsculo.

Cursed City – vários autores (Estronho). Essa antologia weird west, organizada por M. D. Amado, já chama a atenção pela capa, com um buraco de bala atravessando o livro. São 20 histórias, algumas ótimas, outras com uma boa ideia mas que precisavam de um tratamento melhor. Os contos que se destacam são os de Alfer Medeiros, Cirilo S. Lemos, Alliah e Romeu Martins.

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Imaginários 3

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 17/03/2011

Parece que foi ontem, mas já se passou meio ano (quase sete meses, na verdade) do lançamento do volume 3 da coleção Imaginários, organizado por Erick Santos Cardoso. Tive o prazer de  participar não só com o conto Vida e Morte do Último Astro Pornô da Terra, mas também de figurar ao lado de escritores talentosos que admiro – caso deFábio Fernandes e Ana Cristina Rodrigues -, além de conhecer o trabalho de Eduardo SpohrMarcelo Ferlin AssamiRober Pinheiro, Douglas MCT,Lidia Zuin, Cirilo S. Lemos e Fernando Santos de Oliveira.

Nesse meio tempo, a antologia colecionou ótimas resenhas pela internet. Abaixo, segue uma seleção de comentários quanto ao meu conto:

Eric Novello – autor de Neon Azul e um dos organizadores dos volumes 1 e 2 da Imagináriosescreve em seu blog que o conto é um dos pontos fortes da antologia, possuindo um “ótimo protagonista”, além de “uma prosa divertida e situações inteligentes”.

Para Romeu Martins, do blog Cidade Phantástica, é uma “excelente mistura de boa trama, ação de primeira, diálogos inspirados e especulação histórica” e que poderia ser classificado como um exemplar de transistorpunk.

Tibor Moricz – outro organizador dos primeiros volumes da Imaginários e autor de Síndrome de Cérbero, Fome e O Peregrinolembra que já havia lido uma versão anterior do texto, na ocasião de uma premiação literária, e que sua opinião não mudou: continua achando o conto ótimo.

Eduardo Carvalho – colaborador do Portallos – escreve que ficou curioso com o título, sendo uma “ótima história, com muita ação, muito humor e um suspense básico no finalzinho”, classificando como um dos “melhores contos deste volume”.

Junior Cazeri, do Café de Ontem, concorda que o conto é “um dos mais envolventes da antologia, e muito bem escrito por sinal, pra ser lido sem olhar para os lados”. Porém, achou que um dos personagens teve uma “caracterização contraditória”.

Daniel Borba, no blog Além das Estrelas, também gostou do conto, achando “muito interessante essa história”.

Para Antonio Luiz M. C. Costa, colunista da Carta Capital e autor de Eclipse ao Pôr do Sol Crônicas de Atlântida, “é uma peça eficaz de humor negro e retrofuturismo – quer dizer, um cenário baseado em um futuro do pretérito. Uma possibilidade histórica ou tecnológica que não se realizou, mesmo se foi imaginada em algum momento do passado”.

Por fim, Josué de Oliveira, do blog Gotas Humanas, foi certeiro ao comentar que o conto tem “uma pegada hardboiled” e “uma narração seca que se aproxima do noir “, além de“boas cenas de briga”.

ATUALIZAÇÃO 1 (29/08/2011): Para Aléssio Esteves, do Contraversão, a antologia lembra a clássica revista de HQ Heavy Metal, em um misto “de alguns materiais muito bons e legais em meio a um monte de masturbação literária” e que o conto ”mantém o ritmo (…), trazendo uma consequência pouco explorada quando se fala em avanços na robótica.”

ATUALIZAÇÃO 2 (18/01/2012): No blog Nooblandia, Gabriela de Souto escreve que o conto “foi muito divertido” e de que ”vale a pena a leitura, pessoas mais pudicas não precisam se preocupar, não tem nada de exagerado”.

ATUALIZAÇÃO 3 (04/04/2012): Para Tatiana Jimenez Inda, a Leitora Viciada, o conto “mostra uma realidade alternativa com grande toque sarcástico”, sendo “inteligente e divertido” com “críticas ao desemprego tecnológico e falta de princípios morais”.

(Se alguém souber de mais alguma resenha que eu tenha deixado passar, por favor me avise).

Para encerrar, vale observar que a capa, ilustrada por Roko, cumpre muito bem sua função  de despertar a curiosidade no público, ainda que não tenha qualquer relação com os contos; a ilustração seria uma espécie de décima-primeira história do volume, deixando aos leitores a tarefa de imaginá-la. Nesse espírito, decidi escrever um conto pulp inspirado na bela arte e que pode ser conferido aqui.

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Leituras de Janeiro

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 06/02/2011

Em um mês de poucas leituras, vale destacar um pós-cyberpunk e um noir:

Cyber Brasiliana, de Richard Diegues

Em um mundo onde as novas potências se encontram agora abaixo da linha do equador, as pessoas vivem a maior parte do tempo em um cenário virtual  cujo destino, depois de ter sua existência ameaçada, repousa nas mãos  de um guerreiro, um cientista e uma programadora.

Além de escritor e editor da Tarja Editorial, Richard Diegues é desenvolvedor de sistemas para computadores – e essa faceta fica explícita neste romance de ficção científica. Narrado através de vários pontos de vista, esse livro pós-cyberpunk tem uma trama ágil, entremeada por explicações técnicas para o funcionamento do fascinante Hipermundo – o cenário virtual onde se passa boa parte da  história – e conta com personagens interessantes, como é o caso de Kamal. O linguajar técnico, porém, às vezes se torna um problema ao comprometer a fluência do texto, principalmente na parte final, podendo afastar alguns leitores iniciantes no gênero. Sente-se falta também de um maior detalhamento do mundo real da República Brasiliana e das outras nações desta realidade alternativa.

Para quem gostou da ambientação, vale a pena ler os contos presentes na coleção Paradigmas e na antologia Cyberpunk, todas da mesma editora.

Fright, de Cornell Woolrich

Prescott Marshall tem um bom emprego e uma noiva adorável , mas uma noite de bebedeira o leva a um crime e, a partir daquele dia, ele irá viver em um mundo de medo e paranoia.

Autor de alguns clássicos noir como Casei-me com um morto e A noiva estava de preto, além do conto que serviu de base para o filme Janela Indiscreta, Woolrich era um mestre em criar cenas de suspense e dono de um estilo poético, que inspirou escritores como Ray Bradbury. Em Fright – livro que estava fora de catálogo há mais de 50 anos e foi reeditado pela editora Hard Case Crime -, o tom de fatalismo permeia a história como em todo bom noir, mas a trama se estende além da conta; fica-se com a impressão de que ela funcionaria melhor com metade das páginas. O epílogo também não ajuda, forçando uma explicação para uma situação da trama; ainda assim, é um bom exemplo do trabalho de Woolrich, mas longe do seu melhor.

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Livros de 2010 – 2ª parte

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 23/12/2010

Nesta segunda e última parte, comentários de mais três livros:

Secret Story, de Ramsey Campbell

Dudley Smith é um funcionário público medíocre que fica famoso quando um dos seus contos de assassino serial é descoberto por uma revista. O problema de Dudley é que todas as suas tramas são baseadas nos crimes que ele mesmo cometeu – e quando ele precisa de novas histórias, alguém vai ter que morrer.

Campbell é considerado a versão britânica de Stephen King , escrevendo não só horror sobrenatural, mas também ótimos suspenses, tendo como cenário a sua Liverpool natal,  caso deste livro com tons de humor negro: ele alfineta desde as indústrias literária e  cinematográfica (o conto de Dudley vai virar filme) até a busca pela fama, passando por tópicos diversos como “feminismo” radical. Dudley é um personagem patético, mas perigoso, e é aí que reside  o interesse nele, ainda mais quando sua vida se complica ao ser confrontado pela pergunta que todo escritor já ouviu: de onde você tira suas ideias?

É realmente uma pena que o talentoso Ramsey Campbell, um veterano premiado há décadas, seja ainda desconhecido no Brasil (se algo dele já foi publicado por aqui e não fiquei sabendo, me avisem, por favor).

Guerra Justa, de Carlos Orsi

Em um futuro não muito distante, após Meca, Roma e Jerusálem serem destruídas por uma catástrofe natural, uma nova religião surge, liderada por um homem capaz de prever novas tragédias. Mas existe algo de errado nesse culto – e cabe à uma cientista descobrir a verdade por trás das profecias tão certeiras.

Um dos mais talentosos escritores de ficção científica do Brasil, Carlos Orsi tece uma história empolgante, em ritmo de thriller, ao mostrar um culto religioso que usa a tecnologia para controlar seus fiéis e manipular o futuro. Se por um lado o cenário e o tema são atraentes, o mesmo não se pode dizer da personagem principal – a cientista Rafaela está longe de despertar algum tipo de empatia; na realidade, não existe exatamente um protagonista na história, fazendo que certos coadjuvantes – como o caso de Donato, o conspirador que  usa da aleatoriedade para driblar o culto que tudo sabe – sejam mais interessantes.

Vendido no lançamento como romance cyberpunk, o livro pode decepcionar os fãs deste gênero, já que existe pouco do cyberpunk clássico nele.  Rótulos à parte, é uma ficção científica  de ótima qualidade.

Johannes Cabal The Necromancer, de Jonanthan L. Howard

Johannes Cabal é um necromante que decide recuperar a sua alma, vendida anos antes a Satã. Para tanto, ele faz uma aposta com o manda-chuva do Inferno, mesmo sabendo que este sempre joga sujo: conseguir cem almas novas ou a danação eterna.

Cabal é um dos personagens mais esnobes, amorais e irritantes da literatura da fantasia e, por isso mesmo, interessante. O enredo cômico criado pelo britânico Howard – veterano roteirista de games – é às vezes prejudicado pelas suas tentativas de forçar um riso no leitor – nesses momentos, ele parece uma cópia de segunda de Terry Pratchett (Discworld) e Douglas Adams (O Guia Mochileiro das Galáxias), principalmente com piadas sobre contadores ou o clima, tão tipicamente inglesas – e o ritmo desacelera no meio do livro,  mas felizmente o autor retoma as rédeas faltando cem páginas ao final. Por um lado, irrita que o leitor só saiba o motivo de Cabal recuperar a alma apenas na última página da trama.

***

E só para reforçar:  ainda tivemos por aqui resenhas de Audrey’s Door, de Sarah Langan, e dos contos de Imaginários – volumes 1 e 2, organizados por Tibor Moricz, Eric Novello e Saint-Clair Stockler.

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Livros de 2010 – 1ª Parte

Publicado por Marcelo Augusto Galvão em 16/12/2010

Quando comecei com o blog,  um dos meus objetivos  era resenhar livros, filmes, quadrinhos e games com uma certa frequência.

Mas como se vê pelos últimos posts, só ficou mesmo na intenção. Por isso, a partir de agora vou adotar um novo formato. Em vez de resenhas, farei comentários curtos de vários livros/fimes/hqs/games etc  - sejam lançamentos, clássicos ou qualquer coisa entre os dois – em um mesmo post. Nada impede que, vez ou outra, apareça por aqui um comentário maior.

E para começar, no espírito do final de ano,  nada melhor do que alguns livros lidos em 2010. Nesta primeira parte, temos:


The Harrowing, de Alexandra Sokoloff

Cinco estudantes, forçados a passar o feriado de Ação de Graças nos alojamentos desertos da universidade, se deparam com o fantasma de um antigo aluno.

Sokoloff, roteirista de formação, sabe conduzir bem a trama vira-página neste seu romance de estreia, apesar dos personagens que beiram o estereótipo: temos a  virgem tímida, o nerd cético, a piranha sedutora, o atleta garanhão e o músico angustiado. É uma  mistura de Poltergeist com O Clube dos Cinco,  mas que em alguns momentos lembra outros clássicos do gênero do horror, como A Casa Infernal (Richard Matheson).  No final das contas, o destaque da trama fica para o vilão, oriundo de uma mitologia não muito frequente no horror. De qualquer modo, é  diversão agradável por algumas horas.

Darker than you think, de Jack Williamson


O repórter de uma cidadezinha tenta descobrir o que está matando seus antigos amigos, recém-chegados de uma expedição arqueológica no exterior, enquanto se envolve com uma bela e misteriosa mulher.

Esta história de fantasia e horror, publicada originalmente como um conto num pulp em 1940 e depois lançada como romance, foi escrita por um nome mais associado à ficção científica – Williamson cunhou o termo “engenharia genética” numa história sua e foi o segundo Grand Master of Science Fiction da SFWA. Em Darker (…), ele tece uma trama que mistura bruxaria, lobisomens e uma guerra milenar contra a humanidade, tudo regado com explicações científicas. Alguns trechos da história parecem datados hoje em dia  - a  parte científica está mais para pseudociência – e um ou outro personagem pode parecer raso em matéria de personalidade, mas Williamson sabia manter o suspense e o interesse do leitor.  A reedição lida é de 1999 , acompanhada pelas belas ilustrações internas de David G. Klein.

 

Os Passarinhos, de Estevão Ribeiro

Hector, um passarinho aspirante a escritor, e seu amigo rabugento Afonso são os protagonistas desta edição que coleciona novas tiras em preto & branco e outras já conhecidas do site.

Estevão Ribeiro, autor dos romances Enquanto ele estava morto… e A Corrente,  mostra as aventuras da dupla com um humor elegante, sem precisar apelar, e que conta com um ótimo elenco de coadjuvantes. O livro é dividido em seções como “Coisas que Hector Odeia em Paulo, o Coelho” ou “Empregos  Humilhantes de Hector” (meu favorito).  Mas o destaque mesmo fica pelos voos altos do sonhador Hector e as ranhetices do pessimista (ou seria realista?) Afonso trazendo-o de volta ao solo.

How to Write Horror Fiction,  de William F. Nolan

Lançado em 1990, este é um típico manual para se escrever, tão comum nos EUA, onde se tem uma visão mais pragmática da criação literária.

Nolan é um autor veterano de ficção científica, fantasia e horror –  mais conhecido por aqui por ser coautor da FC Logan’s Run,  origem do filme Fuga do Século 23 – e que mostra em capítulos curtos o que  se deve fazer para escrever horror: desde de onde tirar ideias até caracterização, passando por construção do suspense. Verdade que certas partes estão desatualizadas – como a relação de fanzines e revistas, a maioria já defunta – e que algumas dicas são encontradas espalhadas pela internet, mas vale a pena pelo apêndice que lista antologias clássicas e outros livros de referência para os estudiosos sérios.

Curioso também é o capítulo que discute a validade do splatterpunk, ou seja,  o uso de violência exacerbada em histórias do gênero, em detrimento ao horror mais sutil, no qual tudo é mais sugerido do que mostrado. Tal discussão era muito comum no final dos anos 80, quando o gênero do horror começava a perder sua força; hoje, com o chamado torture porn por aí, a discussão parece inútil.

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